domingo, 29 de março de 2026

O biênio 2024–2025

          Caros amigos,


Depois de longa ausência, um “post” bianual — e entendo que há um fio condutor entre os acontecimentos dos últimos dois anos.

Para começar, penso que não dá para falar nada sem antes compreender dois aspectos extremamente relevantes e, até certo ponto, relacionados.

O primeiro é o fatídico 24 de novembro de 2024 (perda do Brasileiro em casa para o Botafogo). Essa data marcou a primeira vez que a TIP (Torcida Insuportável do Palmeiras), de fato, conseguiu invadir a “fortaleza” que permitia à diretoria “dar de ombros” à gritaria. Como consequência, deu carne aos leões e promoveu a maior reformulação da história de um time vencedor que conheci. Quase duas dezenas de jogadores foram dispensados em curtíssimo espaço de tempo (ah, que falta fez um Zé Rafael em Lima, um Mayke… e, se quisermos ir mais atrás… que saudade absurda do Luan). Que fique claro: não sou contra a oxigenação do elenco, mas tenho ressalvas quanto à intensidade. Adicionalmente, infiro que também se quebrou algo que gerava segurança no vestiário, ou seja, por mais que houvesse apupos do torcedor no estádio ou nas redes “antissociais”, a mensagem era: fique tranquilo, jogador, faça o que a comissão lhe pede e tudo bem. Hoje, eles sabem que não é bem assim…

O segundo aspecto é que o Palmeiras não tem opção. Trata-se de estrada única. Para competir com um time que fatura 40% a mais que você, a única chance é investir em jovens que valorizem no futuro e façam a roda girar (junto com a base). O Flamengo faz as duas coisas, ou seja, traz o jovem e o experiente. Nessa final da Libertadores, por exemplo, Jorginho jogou e Saúl ficou no banco para o jovem Pulgar atuar. Não é pequena a diferença de poder “errar” em contratações sem se preocupar financeiramente.

Na história do futebol, é muito improvável que uma reformulação desse porte gere títulos logo no primeiro ano, ainda mais com jovens. A manutenção do time por um período prolongado é fundamental para que os jogadores amadureçam e deem frutos (talvez o maior símbolo seja o Veiga entre 2017 e 2021). E esse cenário, espero estar certo, tem uma boa chance de ocorrer.

Deixando claro o contexto acima, vamos para o ano e para o jogo do ano. O Palmeiras e, em certa medida, o Abel, são uma espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o tal do médico e o monstro. Da mesma forma que a consistência do Palmeiras, as viradas improváveis e o fato de conseguir disputar títulos no primeiro ano de reformulação impressionam positivamente, a tacanha “estratégia” de despejar bola aérea na área e a demora em encontrar soluções dentro do elenco decepcionam muito. São aspectos incompatíveis com o status de Abel e, queiram ou não, com a segunda maior folha salarial do país. Apenas a contusão do nosso Saúl tupiniquim (Evangelista) não deveria explicar essa queda vertiginosa nos últimos jogos da temporada.

Quanto ao jogo no Peru, tentamos a estratégia de 2020: cozinhar a partida até achar um gol. Mesmo com muito menos efetividade do que há cinco anos, se não déssemos um escanteio de graça e o jovem Vitor Roque não perdesse sua chance, vai que… E, se desse certo, estaríamos dizendo que o Abel tinha um plano…

Mas é pouco, muito pouco. O Palmeiras, dentro de campo, fez uma partida muito abaixo até mesmo da sua tradição na competição. O Racing e o Estudiantes, com condições muito piores, foram muito mais efetivos em suas estratégias do que o Palmeiras, congelado num sistema de três zagueiros sem saída, condenando o meio-campo à inanição. Por se tratar de uma final de Libertadores contra o principal rival atual, trata-se de uma página para lá de decepcionante da nossa história pós-reconstrução.

Para não deixar de citar a arbitragem, sou um dos poucos que não expulsaria o Pulgar. Jogo parado, Fuchs deu um totó na bola antes. Para o meu “gosto”, pênalti e expulsão só em último caso, e o futebol brasileiro se acostumou a enxergar o jogo pelo VAR, pelos replays em câmera lenta e pelas marcas de chuteira. Sei que muitos expulsariam, mas não é o que penso. Sei também da total falta de critério, dependendo do árbitro e do campeonato. De qualquer forma, longe de dizer que o resultado do jogo não mudaria, lembro que sofremos um gol de bola parada por erro individual na decisão de deixar a bola sair. A atuação patética foi a maior causa da derrota.

Quanto ao futuro próximo, o ideal é manter o planejamento, com os ajustes anuais naturais (já sabemos que contaremos com os reforços de Evangelista e Paulinho), com duas mudanças comportamentais importantes — uma impossível e outra bastante improvável.

Leila precisa ser menos egocêntrica e parar com a conversa de terceiro mandato, além de restabelecer padrões mínimos de convivência com as organizadas para que todos remem para o mesmo lado. Padrões mínimos não são sinônimos de doação de ingressos, permitir invasões ou dar voz irrestrita aos pleitos. São padrões mínimos mesmo. O Palmeiras quase sempre se coloca ao lado oposto do torcedor (o comum, inclusive). São vários os exemplos, mas o texto ficaria ainda mais longo. Desconexão entre torcida e clube é tão nociva quanto o excesso (vide Parque São Jorge).

E Abel precisa se expressar muito melhor em coletivas, em todos os aspectos, além de gerar alternativas quando a coisa não vai bem. Jogar mal, atravessar má fase e sofrer com contusões todo mundo está sujeito. Pobreza de repertório, não — ainda mais pelo tempo de clube e pela remuneração.

Falando de futuro a médio prazo, não sei o nível de clareza do desafio que nos espera por parte de toda a coletividade. O Flamengo é um colosso. Era difícil e caro ir a Lima, mas para eles foi menos. De novo, eram maioria. Maioria no estádio, nas ruas e até nos aviões em São Paulo. Na prática, a pergunta é: como competir com essa força econômica inédita em mais de 100 anos de história? A resposta talvez passe por dois pontos.

O primeiro é a excelência em todos os pontos de atuação da instituição. Minha visão pessoal é que temos isso na maioria dos temas e, por isso, ainda estamos dividindo títulos.

O segundo é a capacidade de inovação e criatividade para buscar novas receitas acima da média. Aqui não vamos bem. Porém, mesmo que passemos a tê-las algum dia, o rival pode copiá-las logo depois. Ou seja, inovação e criatividade precisam ser contínuas.

Tentando resumir bastante, não há como aumentar as receitas recorrentes do Palmeiras sem um incremento substancial de sua torcida nas próximas décadas. Dificilmente a base pode entregar mais do que já entrega. É improvável que as comissões técnicas do futuro sejam substancialmente melhores do que a atual. O estádio dificilmente dará ainda mais receita do que já dá. A chave está em ampliar o “mercado consumidor”.

Entendo que, por nossos méritos, abriu-se uma janela que não pode ser desperdiçada. Viramos o anti-Flamengo. O Flamengo nos vê, claramente, como seu maior rival. E isso é excelente. Como no judô, devemos usar a força do oponente a nosso favor. Temos uma oportunidade de ouro de promover a maior expansão nacional de torcedores, justamente por sermos o antagonista do time mais popular. Quem melhor ocupou esse espaço fora do eixo Rio–São Paulo no passado foi o Vasco, mas, por motivos óbvios, ele vem perdendo força ano a ano. Dito de outra forma, um torcedor de Petrolina, que gosta de futebol e não quer “pertencer” ao time mais popular do Brasil, precisa ter o Palmeiras como opção acessível e disponível.

Minha visão é que a expansão da torcida do Palmeiras não está na cidade de São Paulo, convencendo filhos de corintianos a torcer pelo alviverde. Está nesse mar de gente jovem que já nasceu nesse futebol mais nacionalizado, clamando por um time relevante para torcer. Não caiamos na conversa de que torcedor de fora do Estado é “terceirizado”. Não é. Eles apenas não frequentam o estádio com regularidade. Como disse anteriormente, em São Paulo, no dia da final da Libertadores, havia inúmeros rubro-negros de outros Estados absolutamente envolvidos com o clube, cantando as músicas, pertencendo àquela comunidade. Viajei ao lado de um torcedor fanático de Mossoró-RN. E, mesmo numa visão mais ampla e pragmática, esses torcedores consomem PPV, camisas, mídias dos clubes, sócio-torcedor etc.

Para aproveitar essa oportunidade, é fundamental um trabalho profissional de marketing nas principais praças fora de São Paulo, com tudo o que se possa imaginar: presença de ex-jogadores, lojas-conceito, espaços que “vendam” o Palmeiras, visitas a escolas, entre outras ações. Aliás, fica aqui um pedido pessoal à diretoria: não é aceitável que a única loja de futebol do aeroporto mais movimentado do país — o maior hub internacional, com presença de inúmeros estrangeiros — seja do Flamengo. Sim, na cidade de São Paulo (GRU) não há uma loja de time paulista. Se um francês desembarcar em São Paulo e quiser levar uma camisa de presente para o filho, só terá uma opção…

Termino com dois parágrafos menos entusiasmados. Nossa distância para o terceiro e o quarto clubes do país está aumentando, mas a do primeiro também. Mais do que uma “espanholização”, vejo um risco real de “alemanhização” do nosso futebol. O Flamengo aumentou sua receita, mas ainda tinha uma gestão esportiva à moda antiga, exemplificada por Gabigol fazendo o que queria e mandando cinco treinadores embora. Este foi o primeiro ano de gestão esportiva aliada à gestão econômica. E o resultado? Até o dia 21 de dezembro, o Flamengo será o atual campeão da Libertadores, do Brasileiro, da Copa do Brasil, da Supercopa, do Carioca e da Taça Guanabara, gabaritando todos os títulos possíveis, exceto o Mundial de Clubes.

Talvez estejamos começando uma nova fase em que não seremos mais capazes de “dividir” os títulos, mas de ganhar alguns. Talvez isso não fique latente em 2026 ou 2027, mas, até o final da década, me parece inexorável — a não ser que haja uma nova reconstrução alviverde ou uma mudança estrutural do futebol brasileiro, algo bastante improvável. A estrada está bifurcando… Seremos o Barcelona ou o Borussia? E, se está “ruim” para nós, imagine para o resto. De qualquer forma, o Palmeiras 2.0 (conforme post anterior) precisa começar agora — e já estamos atrasados.

Marcelo, o Racional

2023 – As Respostas

          Caros amigos,

No tradicional “post” do final do ano passado, fazia a pergunta sobre a consolidação de um ciclo ou de um método. Transcrevo parte daquele texto:

“Afinal, estamos assistindo à consolidação de um método ou de um ciclo? Sendo mais claro… estamos convencidos de que esse é o modelo e iremos replicá-lo pelos próximos anos ou, nas derrotas e decepções (desculpem-me alertar, elas virão), voltaremos ao caminho antigo?

Sinceramente, não tenho a resposta. A rigor, só saberemos quando formos submetidos a essa (desagradável) situação. Os sinais são confusos. Por um lado, os títulos deveriam dar a convicção do nosso caminho. Por outro, nas (raras) derrotas e nas (inúmeras) contratações de outros times, sempre enxergamos manifestações de inveja e desconforto.

A direção será forte o bastante? Tomara que sim! 

Nossa força deveria estar mais no método e nos processos (clube, direção, finanças, marketing, estrutura) do que ‘na’ pessoa (Paulo Nobre, Leila Pereira e, de maneira mais emblemática atualmente, Abel Ferreira). 

Por mais paradoxal que possa parecer, o maior e melhor remédio para a inevitável (só não sabemos quando) abstinência de Abel Ferreira será a convicção no nosso modelo. Abandoná-lo pode nos custar anos e anos, como vimos nas décadas perdidas desde 1980. 

San Gennaro vem nos mostrando o caminho. Que ele nos dê sabedoria para que a coletividade resista às tentações e continue trilhando o caminho do protagonismo.” 

Bem, 2023 nos deu parte da resposta. 

Do ponto de vista da coletividade, está muito claro: esse modelo não tem aprovação e, talvez o advérbio seja pesado demais, jamais terá. Mesmo com os inúmeros troféus e as diversas manifestações que nos deixaram orgulhosos do time para o qual torcemos — para citar apenas um exemplo recente, a virada heroica contra o Botafogo —, a pressão pela troca do modelo é constante e pesada. O “ô, ô, ô, queremos jogador…” é mais dissimulado, mas continua tão forte quanto sempre foi. 

Naturalmente, esse clamor não vem de uma análise paciente e ponderada dos fatos, mas de um costume antigo — de quando o jogo era menos coletivo e resolvido por “craques” — alimentado por um modelo de comunicação (imprensa e redes “antissociais”) que exige contundência e polêmica. Peço paciência aos raros leitores, já que esse tema é tratado por este “blogueiro” há décadas (inclusive neste espaço), e vamos insistir novamente… 

Para começar, esse modelo palestrino só pôde ser colocado em prática neste século. O esporte sofreu uma transformação absurda nos últimos 15 a 20 anos, talvez a maior que o futebol secular já experimentou. O jogo, antes mais individual e de improviso, tornou-se essencialmente coletivo e estudado. Cabe ressaltar que não se trata de uma opinião pessoal, mas de uma constatação. É interessante notar como essa mudança tem correlação direta com a perda de relevância da seleção brasileira desde então. Quando o jogo era individual e improvisado, os craques brasileiros resolviam. Se a coisa ia mal, bastava chamar Romário em 1993. E ele resolvia mesmo. 

Hoje, o jogo é essencialmente coletivo: deslocamentos sem a bola, passes rasteiros precisos no pé correto do companheiro, excelência física para cumprir papéis previamente determinados, consistência mental para suportar o “pique da remada” por toda a temporada (ou várias temporadas), gestão de grupo para um calendário cada vez mais desafiador e técnicos que conheçam o jogo — e não apenas aspectos motivacionais ou intuitivos (menos Joel Santana e mais Abel Ferreira). Esses são alguns exemplos dessa nova dinâmica. 

Como o futebol brasileiro nasceu, cresceu e se tornou relevante na dinâmica antiga — da saudosa e inevitável memória afetiva que nos remete à forma como nos apaixonamos pelo futebol —, há uma verdadeira “bola de ferro” que impede a coletividade do futebol brasileiro de reconhecer essas mudanças. Seja a imprensa, seja a torcida, seja a classe dirigente (amadora), todos ainda carregam no imaginário a ideia de que a solução para uma derrota é a chegada de um “grande” jogador. Aquele que fez um lance bonito no passado, um golaço, e que supostamente resolverá todos os problemas. Nada mais ilusório. Evidentemente, não se está dizendo que o craque não tem mais espaço ou que jogadores limitados ganham jogos sozinhos. Apenas que a qualidade técnica isolada não é mais suficiente. 

Por óbvio, é importante reconhecer que modelo algum garante vitórias e títulos. Trata-se de um jogo — e nem todas as situações podem ser previstas ou controladas. A grande entrega de um modelo é a perenidade do protagonismo institucional. Tendo isso claro, vamos tentar resumir o modelo do Palmeiras desde 2020. Vale lembrar que ele foi iniciado não por convicção, mas por necessidade, após o “all in” financeiro de 2019 e o atropelo do rival carioca naquele mesmo ano. 

O modelo escolhido pelo Palmeiras consiste, resumidamente, em: fortalecimento da base, elenco menos numeroso, reconhecimento de quem se comprova tecnicamente bom e fortemente comprometido, jogadores de idade média mais baixa, tudo sustentado por uma estrutura de primeira linha para padrões nacionais. Cada escolha traz vantagens e desvantagens. Curiosamente, quem critica o modelo palmeirense costuma ignorar as desvantagens dos modelos adotados pelos rivais.  

1 – Fortalecimento da base 

A base do Palmeiras deixou de ser uma vergonha ou uma nulidade. Após uma década de trabalho sério, tornou-se a melhor do Brasil. Vários jogadores demonstraram capacidade de integrar o elenco principal e, em alguns casos, serem protagonistas. Na partida contra o River Plate, na Argentina, pela Libertadores de 2020, foi impressionante como os “três porquinhos” do meio-campo (Patrick de Paula, Danilo e Gabriel Menino) controlaram o jogo. Veron e Wesley tiveram participações relevantes em títulos. Naves, mais recentemente, deu conta do recado. Sem falar em Endrick, a exceção da exceção. A escolha entre esses jogadores e contratações externas deixou de ser óbvia. A base gera dúvidas legítimas sobre a real necessidade de contratar. Curiosamente, os casos que deram errado foram muito mais por questões comportamentais do que técnicas — e quem falha nesse quesito costuma ser afastado rapidamente. 

2 – Elenco menos numeroso 

Manter um grupo coeso, sem vaidades contaminando o ambiente, é particularmente difícil no futebol brasileiro. Um elenco menos numeroso e sem grandes “tubarões” no banco facilita esse objetivo. Todos, cedo ou tarde, têm oportunidade. O entendimento do técnico sobre competências técnicas e comportamentais torna-se mais claro, e o empenho aumenta. Tentamos o modelo oposto há pouco tempo, com resultado pior e mais caro. Tínhamos Veiga, Scarpa, Lucas Lima e Ricardo Goulart disputando a mesma faixa do campo, numa ciranda improdutiva. No Flamengo de 2023, Pedro foi agredido pelo preparador físico, Vidal jogou a caneleira no banco, Gérson agrediu Varela. Elenco grande não garante sucesso. 

3 – Reconhecimento de quem se comprova bom e comprometido 

Nesse modelo, jogadores merecedores são rapidamente reconhecidos. Passa despercebido, mas o Palmeiras renovou recentemente com Zé Rafael e Murilo. Essas renovações consideram não apenas técnica, mas comprometimento. O índice de acertos é impressionante. As vantagens incluem menor risco, memória de jogo, alicerce de experiência e maior paciência da torcida. Por outro lado, o custo do elenco sobe, exigindo atenção para evitar acomodação. O Flamengo é um bom contraponto: renovou contratos levando em conta quase exclusivamente aspectos técnicos e colheu acomodação. 

4 – Jogadores de idade média mais baixa 

Goste-se ou não, o esporte tornou-se muito mais físico. O calendário é insano. Jogadores mais jovens suportam melhor a intensidade e reduzem riscos de contusão. As contratações “de aeroporto” geralmente envolvem atletas mais velhos, pouco compatíveis com o modelo escolhido. O Corinthians é um exemplo do modelo oposto. O Fluminense adotou um modelo híbrido (base + veteranos), eficaz em mata-matas, mas com dificuldades em torneios longos. 

Enfim, a pergunta central é: 

O modelo vigente garante protagonismo perene? 

Para este “blogueiro”, a resposta é sim. Um sonoro SIM. 

Mesmo para os mais céticos, que só consideram troféus, trata-se do período mais vitorioso dos 110 anos da instituição. Isso sem contar os momentos épicos, os jogos inesquecíveis que farão parte da memória coletiva de filhos e netos. 

Curioso observar também o silêncio conveniente quando modelos antagônicos fracassam — seja nos rivais, seja no próprio Palmeiras em apostas recentes em Borjas, Lucas Limas e Ricardo Goularts. Quando o fracasso acontece, a culpa recai sempre no técnico. O famoso “tem que mandar embora”, como se contratos não existissem ou como se outros clubes estivessem ansiosos para absorver essas “bombas”. 

É difícil compreender a paixão por pedir jogador a cada decepção. A conclusão, portanto, é dura: mesmo entregando protagonismo e títulos, esse modelo jamais terá aprovação majoritária da coletividade. Antes, os defensores eram praticamente inexistentes; hoje são poucos. Achar que se tornarão maioria é devaneio. 

Por fim, é fundamental reforçar: apoiar o modelo de gestão do futebol não é apoiar irrestritamente a gestão da presidente. Há aspectos criticáveis — imagem institucional, conflitos de interesse evidentes, timidez em inovação de receitas e enfraquecimento da oposição. Reconhecer acertos no futebol não concede salvo-conduto para erros em outras áreas. 

Quanto à direção, a resposta ainda é inconclusiva. Houve resistência à pressão, mas ainda não se viveu um período prolongado sem conquistas. Confesso que esperava maior suscetibilidade à pressão, mas, por convicção ou gosto pelo confronto, o modelo foi mantido neste primeiro mandato. 

Concluindo este longo “post”, nada indica, infelizmente, a consolidação definitiva de um método. Resta torcer para que esse ciclo seja eterno enquanto dure.

Um feliz 2024 para todos os palestrinos. 

Marcelo, o Racional

sábado, 31 de dezembro de 2022

1940 - ∞



Caros amigos,

 

O futebol tem uma relevância absurda na minha vida. Sempre teve. Talvez até numa intensidade acima do razoável, não sei...

 

O que sei é que desde muito cedo me envolvi com esse esporte maravilhoso por inúmeros motivos. Quando criança, nossa perspectiva de tempo é totalmente diferente. Um fato ocorrido há 5 ou 10 anos era como uma vida inteira (e era). Hoje sabemos que esse tempo é um piscar de olhos...Então, a rigor, comecei a me envolver com futebol logo depois que o REI parou. Entrevistas de jogadores, comentários em programas esportivos de rádio e TV e os deliciosos “videotapes” retratavam a carreira do REI a todo instante. De alguma forma, ELE era próximo...

 

Lá pelos meus 11/12 anos, minha família adquire um bem “revolucionário” para os padrões da época. Um videocassete (se algum jovem estiver lendo, sugiro “dar um Google”). Minha alegria era gravar os “Gols do Fantástico” e revê-lo por toda a semana, inúmeras vezes, os gols do domingo...Era possível dar pausa e avançar quadro a quadro...Inesquecível...

 

Até que um dia, meu primo Marcus leva à minha casa uma fita VHS do filme “Isto é Pelé!” Lembro até hoje da primeira vez que assisti (boquiaberto)...Meu objeto de desejo passou a ser ter esse VHS. Por algum motivo, não achei para comprar em São Paulo e meu falecido Tio Jaime encontrou uma última unidade em Catanduva e a comprou para mim...Ainda tive que esperar o momento que algum parente viesse à capital paulista para entregar meu tesouro...Sem exagero, devo ter assistido esse filme umas 2 centenas de vezes, várias com meu primo. Lembrava de todas as falas (aliás, apesar da idade, lembro uns 70% delas até hoje). Sim...a inexorável paixão pelo futebol estava reforçada eternamente pela alicerce real.

 

Não...Não vou falar de todos os seus feitos...Isso é desnecessário. Apenas reconhecer que você, REI, é o maior embaixador da história desse país. Tive a oportunidade de visitar mais de 50 países até hoje e em todos eles há um padrão. A forma como as pessoas reagem ao descobrirem que somos brasileiros...Um sorriso e a palavra PELÉ nos mais variados sotaques. De certa forma, não surpreende a enorme repercussão e as homenagens vindas dos 4 cantos do planeta nesse triste 29 de dezembro de 2022.

 

PELÉ, meu muito obrigado!! Por tudo! Tudo mesmo, inclusive aqueles segundos que você perdeu para escrever essa mensagem (foto acima) que, um dia, será passada para meu filho, afinal, o legado é eterno...

 

Fique com Deus, Majestade!

 

O “Prisco Palestra” nunca publicou um “post” que não tratasse de Palmeiras. A primeira e última exceção é essa.

 

Marcelo, o súdito.





segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Palmeiras 2.0. Você está preparado para essa conversa?

Conquistas e mais conquistas. Na opinião de muitos (é a minha também), estamos vivendo o maior momento da história da Sociedade Esportiva Palmeiras. Alegrias e orgulho nunca vistos. 

Para tantos, nada é mais desestimulante que tratar de assuntos “chatos” em épocas de festa e exaltação. Mas peço a paciência do raro(a) leitor(a) para “mudar o rumo da prosa”. 

 Lá se vai mais de uma década que meu grande amigo “Baggio” abre espaço em seu “blog” para debatermos nossa maior paixão. 

 No passado, o Palmeiras fazia seus “all in” financeiros e se lambuzava com medalhões (um dos mais eficazes anestésicos para os torcedores). Esse “blogueiro” (como pode-se verificar nos inúmeros “posts” anteriores) sugeria um outro caminho, bem menos popular (e como “sofri” em mesas de bar e grupos de e-mail e WhatsApp…). 

 Tentando resumir muito, defendia-se a reestruturação financeira (mesmo que custasse um período com times tecnicamente frágeis), valorização da base, contratações de jogadores jovens com potencial através de um trabalho de prospecção competente (que, por mais paradoxal que possa parecer, não leve em conta apenas a técnica, mas aspectos comportamentais, propensão a contusões, etc.), comissão técnica minimamente profissional (em todas as áreas), estrutura de treinamento e recuperação de atletas, hotelaria/nutrição, investimento num robusto programa de sócio torcedor e forte conexão da sua torcida com a instituição (orgulho). 

 Por “sorte”, San Gennaro voltou à Terra. “Pousou” na Pompeia em 2013 e assumiu a presidência. Paulo Nobre deu início ao processo de reestruturação que, pela graça de Deus, foi continuado por seus sucessores. Essencialmente, buscou-se os aspectos do parágrafo anterior. Talvez não fizemos 100% do que podíamos. Talvez titubeamos em alguns caminhos. Talvez o processo não tenha sido linear. Mas é inequívoco que a direção e a intenção estavam lá. As melhoras eram constantes e visíveis. Em todos os campos. Até que….chegamos em 2022. 

 O ápice. A consolidação. O orgulho. As conquistas. 

 Enfim, tudo o que fizemos desde 2013 nos permitiram vários anos de protagonismo. A reestruturação 1.0 nos trouxe até aqui e com louvor. 

 Mas receio que ela, por si só, não bastará para a próxima década. O “mercado da bola” está sofrendo mudanças impressionantes abrindo possibilidade de “ressuscitar” algumas marcas e enterrar de vez outras. 

 Para começar, o Brasil aprovou o instituto das “SAFs”. Além da entrada de recursos que faz alguns “milagres”, está havendo uma silenciosa transformação da gestão dos clubes. Saem os cartolas (despreparados, para ser elegante) e entram os gestores das sociedades. Claro que nem todos serão competentes e terão resultados, mas, convenhamos, a concorrência (cartolas) não inspiram muitas saudades. Sendo assim, sairão de cena os dirigentes populistas que rasgam $$ e contratam jogadores sem critério para um modelo mais sério e profissional cuja chance de acerto em campo é, obviamente, muito maior. 

 Outro ponto que merece destaque são as outras fontes de receita desse mercado chamado futebol. Desde os “sites” de aposta (que necessitam de uma regulação urgente), passando por “streaming”, direitos de transmissão, novas mídias, engajamento em redes (anti) sociais, arenas, valor das ligas. Enfim, uma infinidade de recursos que faria um cartola dos anos 80 achar que estava num quadrinho do “Tio Patinhas”… 

 Hoje já observamos um fato concreto. Nosso maior oponente na atualidade tem uma receita “basal” cerca de 30% superior à nossa. O rubro-negro carioca fatura algo com R$ 1 bilhão por ano sem contar anos com várias premiações por títulos. Nossa receita “basal” está na casa dos R$ 750 milhões. Tudo constante, numa década, a diferença de receita será da ordem de R$ 2,5 bilhões. Isso não representa apenas a possibilidade de pagar melhores jogadores, contratar bons valores, mas de fazer investimentos em estrutura no futebol profissional e na base, além de estar numa posição privilegiada para negociar contratos de qualquer espécie (sem estar com a “faca no pescoço”). 

 Enfim, o Palmeiras atingiu um determinado nível de profissionalismo num futebol extremamente amador. Isso foi mais que suficiente para alcançarmos nosso nível atual. Mas, ano após ano, concorreremos com adversários mais preparados. 

 Sendo assim, quanto mais cedo fizermos nossa segunda reestruturação, menos incerta será nossa permanência no “hall” de protagonistas do futebol brasileiro. Para tanto, uma nova onda de profissionalização urge na Sociedade Esportiva Palmeiras. Um profissional de marketing com papel não apenas de trazer receita para o clube, mas com a atribuição de aumentar o número de “clientes”. Escrevendo de outra forma, é fundamental que mais pessoas “consumam” mais o clube. Seja através da conquista de mais torcedores (algo que se faz num público entre 5 e 15 anos, no máximo), seja através de ações que permitam maior engajamento aos já convertidos. Nenhuma fonte de receita será sustentável sem uma legião de torcedores amparando esse pilar. 

 Nessa revolução do mercado do futebol, outros profissionais deveriam ser contratados também. Por exemplo, um executivo de relações institucionais que se preocuparia com a forma como o Palmeiras se posiciona para “fora do muro”, seja com a torcida, seja com a mídia, enfim, alguém preocupado com a marca. 

 Vale citar a importância de um executivo comercial, com ampla bagagem de conhecimento acerca das inúmeras fontes de receita disponíveis aos clubes, além da capacidade de atrair bons investidores. Por falar em investidores, de forma alguma deveríamos repelir o debate sobre a SAF. Talvez, inclusive, seja um ótimo momento para esse debate tendo em vista nossa boa posição relativa esportiva e de fluxo de caixa. 

 Obviamente, vale manter e reforçar o que já fazemos bem. Profissionais qualificados na base e na comissão técnica permanente para cada vez menos dependermos de “heróis”, seja na presidência, seja na comissão técnica. 

 Enfim, a ideia não é citar todos os cargos, mas reforçar o conceito. A seara competitiva está mudando e de forma rápida. Para manter nosso protagonismo, precisamos debater como nos prepararemos para esse novo ciclo. 

 Que tal agora? 

 Marcelo, o Racional

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Orgulho imenso! Consolidação de um método ou de um ciclo?

 Caros amigos,

 

Evidentemente trata-se de uma sensação pessoal sem nenhuma pretensão de qualificá-la como majoritária. Feita essa observação, reputo 2022 como o ano que mais me senti orgulhoso da Sociedade Esportiva Palmeiras! E motivos não faltaram...

 

Primeiro pela qualidade do jogo. Meus raros leitores lembram que colocava em dúvida a capacidade do treinador em entregar um jogo além de pragmático pelo que víamos em campo nas temporadas 2020/2021. Ledo engano...A oportunidade de fazer a pré-temporada, algum tempo para treinar durante os campeonatos rolando e a possibilidade de fazer as mudanças no elenco (chegadas e saídas) foram os elementos que permitiram a Abel comprovar sua absurda competência. Essas condições tinham sido negadas nas temporadas anteriores (basicamente devido à pandemia) e, por isso, minha equivocada desconfiança. Em várias jornadas durante o ano, o Palmeiras se comportou como um imponente protagonista. Curioso notar que essa evolução ocorreu sem perder o que o time já fazia de bom nas temporadas anteriores. Joga em vários estilos, contra vários tipos de adversários, em várias situações de jogo, em diversos tipos de campeonatos.

 

Segundo pelo caráter desse elenco. Jogadores muito comprometidos com o trabalho tático, disciplinados fisicamente, sem nenhum, rigorosamente nenhum “problema de vestiário”. Seja na atitude ou em declarações, sempre respeitaram a torcida e a instituição. Jogadores que olham o símbolo do Palmeiras com a cabeça para o alto, reconhecendo a ótima estrutura do clube e entendendo sua história. Impressionante notar que nesse elenco não há jogador descompromissado. Vale lembrar e exaltar para sempre!

 

Terceiro pelo treinador. Desde que acompanho o Palmeiras (início da década de 80) nunca vi uma “pessoa física” que representasse e respeitasse tão bem a nossa essência. Desde a primeira entrevista coletiva onde demonstrou todo o interesse em aprender sobre o clube e a história, passando pelas entrevistas onde sempre foi um embaixador da entidade. Além disso, ele é complementado por uma equipe altamente engajada e profissional. Num país tão mal servidos de técnicos, somos extremamente privilegiados em contar com esse treinador que também olha o clube com a cabeça para o alto. Está apenas em início de carreira, mas já tem contribuições bem maiores que vários que até já se aposentaram. Para citar apenas um exemplo, pode-se lembrar a edição de um livro que, além de fonte de conhecimento, permitiu colaborar com entidades assistenciais através da doação dos recursos arrecadados. 

 

Quarto pelos jogos marcantes e marcas impressionantes. Dominância absurda em clássicos, viradas espetaculares, performances incríveis com menos de 11 jogadores, variações táticas e de jogadores de posição executadas à perfeição, gols de bicicleta (sim, no plural), baixíssimo número de derrotas na temporada (6), inúmeras entrevistas de jogadores e técnicos adversários exaltando o Palmeiras, etc..

 

Quinto pelo inesquecível dia 03 de abril de 2022. Décadas estavam em campo naquele dia. Vale reler o “post” “Sonho, Dna e Orgulho”. (http://priscopalestra.blogspot.com/2022/04/sonho-dna-e-orgulho.html?m=1)

 

Sexto pela manutenção da estratégia de um trabalho árduo de busca de valores “desconhecidos” no mercado, valorização do elenco e da base com mudanças pontuais sem recorrer às pragas dos “medalhões” que tanta falsa alegria geram no curto prazo e decepções em médio e longo prazo. Além disso, a inteligência de trabalhar com um elenco menos numeroso, facilitando a gestão de pessoas por parte do técnico fazendo com que todos se sintam realmente relevantes e, mais importante, que consigam ser aproveitados no decorrer do ano.

 

Confesso que os pontos acima não estão em ordem de importância. Mas esse eu faço questão de deixar por último: os títulos. Recopa, Paulistão e Hendeca Brasileiro. Como aperitivo, a Copinha em janeiro. Deixo em último porque, caso eles não viessem, não poderíamos deixar de considerar tudo que foi apontado anteriormente nesse texto. Escolher caminho, ser protagonista são “escolhas” que estão nas nossas mãos. Vencer troféus, não. Dependem de inúmeras circunstâncias que não controlamos.


Ufa...2022 estará marcado para sempre nos corações verdes!! 


Meu sincero agradecimento a todos!


Reconhecimento indubitável. Voltando para o título do “post”; a dúvida é de outra natureza...


Afinal, estamos assintindo a consolidação de um método ou de um clclo? Sendo mais claro...Estamos convencidos que esse é o modelo e iremos replicá-lo pelos próximos anos ou nas derrotas e decepções (desculpem-me alertar, elas virão) voltaremos ao caminho antigo?


Sinceramente, não tenho a resposta. A rigor, só saberemos quando formos submetidos à essa (desagradável) situação. Os sinais são confusos. Por um lado, os títulos deveriam dar a convicção do nosso caminho. Por outro, nas (raras) derrotas e nas (inúmeras) contratações de outros times sempre enxergamos manifestações de inveja e desconforto. 


A direção será forte o bastante? Tomara que sim! 


Nossa força deveria estar mais no método e nos processos (clube/direção/finanças/marketing/estrutura) que “‘na” pessoa (Paulo Nobre, Leila Pereira e, de maneira mais emblemática atualmente, Abel Ferreira). 


Por mais paradoxal que possa parecer, o maior e melhor remédio para a inevitável (só não sabemos quando) abstinência de Abel Ferreira será a convicção do nosso modelo. Abandoná-lo pode nos custar anos e anos como vimos nas décadas perdidas desde 1980. 


San Gennaro vem nos mostrando o caminho. Que ele nos dê sabedoria para que a coletividade resista às tentações e continuemos trilhando o caminho do protagonismo. 


São os meus votos!! Mais um excelente Natal e um 2023 protagonista para todos os alviverdes!


Marcelo, o Racional. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Sonho, DNA e Orgulho

 Caros amigos,

 

Eventos extraordinários exigem “posts” extraordinários. Quebrando uma tradição de publicarmos textos apenas no final de ano, o “blog” quebrará o protocolo...

 

Para iniciar, gostaria de citar um antológico texto do excelente Carlos Eduardo Mansur no “O Globo”. A seguir, os 2 primeiros parágrafos do artigo:

 

“ No final dos anos 1990, um executivo do Manchester United explicava como o clube entendeu seu papel na indústria do entretenimento e sua relação com a sociedade. A discussão na cúpula do United partiu de uma pergunta: “O que vendemos? Futebol? Jogadores?”. Não demorou muito para que o debate se encerrasse diante da conclusão definitiva: “Vendemos sonhos”.

 

É algo de uma profundidade acima do que se imagina. Aqui, vender sonhos tem um sentido amplo e poderosíssimo. Engloba toda a gama de emoções que um clube desperta: do menino que sonha em jogar bola ao que fantasia viver uma tarde num estádio lotado; é a vitória que gera uma sensação de realização que, por vezes, a vida nega; são os valores que se percebem acoplados àquele clube e àquela comunidade; é pertencimento e família.” (grifo meu).

 

O dia de ontem estará para sempre eternizado nas nossas lembranças. Vale refletir sobre os motivos...

 

Se um clube vende sonhos e pertencimento o 3 de abril de 2022 não apenas ficará marcado pelo aniversário de 8 décadas de nosso maior jogador mas, também, como o dia que o Palmeiras mais representou esse “papel”. Coisas aparentemente desimportantes e outras explícitas marcaram nossa semana. A luta para jogar no nosso estádio nos fez lembrar que nunca teremos “lambuja” do Estado (aqui compreendido como governo e federações). Aprendemos desde a nossa fundação (com as inúmeras dificuldades e preconceito explícito) que aqui aprendemos a resolver nossos problemas sozinhos. Se o Estado não nos “dá” um estádio, construímos o nosso e modernizamos com um parceiro privado. Se o alvará de construção não sai, nos viramos e conseguimos um de reforma (sempre lembrando que o governo que nos atrasou em anos é o mesmo que concedeu as licenças em dias para o estádio de Itaquera). Se a Federação não se alinha com os campeonatos relevantes do país (mineiro, gaúcho e carioca) e não “permite” a decisão no sábado, a gente se vira com as entidades privadas e joga no domingo. Esses episódios nos ajudam a entender o motivo pelo qual nunca tivemos um patrocínio público na camisa. É a nossa história! Lutar pelo nosso estádio é um símbolo que gera uma simbiose entre clube e torcida. Sonho e pertencimento. A singela ideia de permitir que sócios assistissem atrás do gol com telão é de uma sensibilidade ímpar. É o clube (que entendo que vinha se afastando por algum período) dizendo para seu torcedor: “Eu não existo sem você”. “A minha força vem de você”. A imagem de torcedores alucinados assistindo ao jogo atrás de um palco merece uma lembrança eterna e essa foto tem que estar nos murais mais importantes do nosso clube (como Oberdan e a bandeira do Brasil em 20 de setembro de 1942).

 

Por falar em Arrancada Heroica, como não lembrar do técnico do Palmeiras e sua citação desse maiúsculo episódio de nossa rica história? Com tudo que aconteceu na semana dentro e fora de campo é óbvio que naqueles 90 minutos tínhamos de honrar o busto do Capitão Adalberto Mendes que nos ajuda a lembrar todos os dias a nossa jornada para ser quem somos. Para lembrar de onde viemos. Lutando contra o que é aceitável, mas, principalmente, contra o que é inaceitável. Se o clube “oferece” pertencimento, é óbvio que, de alguma forma, 1942 esteve em campo no domingo. Parafraseando o “site” “Nosso Palestra” ontem vivemos a Arrancada Heroica 2.2, épica ao seu tempo...

 

Acrescente um time que não contrata mais medalhões e “forma” um Raphael Veiga (neto de palestrino fanático) dentro do nosso clube. Jogadores que olham o escudo para cima. As crias da Academia e suas “fornadas” que não param de chegar. Um técnico que, de forma impressionante, capta, comunica e multiplica os valores de ser palmeirense em tempo absolutamente recorde. Um jogo imponente, amassando o adversário, recuperando (mesmo que não aconteça em todos os jogos) nosso DNA de imposição sobre o adversário.

 

Se ontem o Palmeiras “vendeu” tudo o que dele se espera, o resultado (não falo de campo ainda) não poderia ser diferente. Um Allianz Parque que pulsava! Pulava e gritava como nunca. Do primeiro ao último minuto numa extraordinária comunhão do time com sua gente. Dentro e fora do estádio. Nos arredores ou no lugar mais longínquo do planeta. Nessas condições, repito, nessas condições não havia nenhuma hipótese do “rival” sair com o troféu. Como prêmio, inesquecível, levou o maior placar de sua história em finais e as repercussões do atropelamento na Zona Sul são impressionantes.

 

Seja pelo fato de não demitir nenhum colaborador na pandemia. Seja pela música de Abel pré-Mundial (alguém já viu uma declaração de amor não ser brega?). Seja pelas crias da Academia. Seja pelo diferenciadíssimo técnico. Seja pelo elenco atual. Seja pelo respeito ao torcedor. Seja por continuar não dependendo do Estado. Seja pelo elenco e comissão técnica citarem a nossa história. Enfim, são inúmeros fatores, não tenho a pretensão de citar todos. Mas a conjunção de tudo isso me traz o seguinte sentimento:

 

Em 47 anos de vida e 42 de “palmeirense consciente” eu nunca tive tanto orgulho de ser palmeirense.

 

E, paradoxalmente, isso não tem a ver com os troféus. Eles são apenas a consequência natural. (E lembrem-se, um clube não vende títulos...vende sonho e pertencimento, certo?). E nós, “palmeirenses da fila” sabemos muito bem respeitar os ciclos de glórias e de “vacas magras”. Esses dias de glória, é natural, em algum momento se transformarão em períodos mais áridos...Da mesma forma, em outro momento, as glórias voltarão. Porém, a gente sabe muito bem o que devemos fazer quando as coisas não estiverem tão bem. Jamais virar as costas para a nossa essência e, de alguma forma, lembrar da experiência do United descrita acima. Não tenho certeza de títulos, mas tenho certeza da existência eterna! E ela basta! Como ouvimos no pedaço mais especial do Planeta ao som dos bumbos: “Graças a Deus eu sou Verdão; e ele está no coração; ele ganhando, ele perdendo; sou palmeirense de coração”.

 

Não é objetivo desse texto, mas óbvio que temos (muitas) coisas a melhorar. Da mesma forma, a frase acima jamais pode ser compreendida como se antes não houvesse orgulho. Apenas um reconhecimento que se vendemos valores que se percebem acoplados àquele clube e àquela comunidade, se vendemos pertencimento e família, o 3 de abril de 2022 é eterno e se meu avô me falava da Arrancada Heroica eu citarei essa data ao meu neto (Se Deus e San Genaro quiserem)!!

 

Marcelo, (nem tanto) o Racional

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Continuidade ou ruptura?

        Caros amigos, 

        Mais uma temporada se encerra e o tradicional “post” de final de ano não perde a oportunidade de se fazer presente, assim como o Deyverson no nonagésimo quinto minuto na capital uruguaia... 

        Para alguns, sei disso, o texto abaixo será qualificado como uma heresia. Assim como petistas e tucanos têm pavor das comparações entre o último mandato de FHC e o primeiro de Lula sei que vou desagradar “nobristas” e “galiottistas”. Em que pese, obviamente, haver diferenças entre os 2 presidentes, o ano de 2021 nada mais é que a consequência dos acertos, erros e aprendizados colhidos desde 2013 quando Paulo Nobre assume o clube e dá o primeiro, e fundamental passo para a organização do clube. 

        Esse inesquecível período de 9 anos foi marcado por presidentes sóbrios que respeitavam dignamente o papel de “chefe de Estado” do clube. Diferentemente de dirigentes de outros clubes (ou até de dirigentes pretéritos nossos) não sentíamos vergonha quando eles empunhavam um microfone. A organização financeira também foi um pilar importante. No princípio, para fazer um time minimamente competitivo e, na sequência, para investimentos em categoria de base e estrutura física como CT, hotel e um centro físico e de reabilitação de excelência. O respeito que a Sociedade Esportiva Palmeiras goza no meio do futebol é digno de destaque. Jogadores que antes queriam distância da Marquês de São Vicente, são oferecidos por empresários que reconhecem a “vitrine” e a seriedade no pagamento dos compromissos. A “vitrine” é consequência do protagonismo assumido desde 2015, disputando com reais chances todos os campeonatos que se apresentam. 

         A diversificação de fontes de receita também é uma característica dessa última década. Patrocínio, venda de ingressos/estádio/sócio torcedor, receitas de transmissão e de venda de jogadores têm uma proporção muito saudável, diminuindo a dependência do clube em uma fonte específica. Para o torcedor mais pragmático, o período nos brindou com as taças mais cobiçadas pelos clubes brasileiros (Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil) em dose dupla. Por fim, uma característica marcante. Os 2 presidentes quebraram uma perversa escrita do futebol brasileiro e do antigo Palmeiras. Não gastaram o quê tinham e o quê não tinham no último ano de mandato no clássico “sair de bem com a torcida” e deixando a terra arrasada para o sucessor. 

         Voltando mais à gestão Galiotte e os últimos anos, sem dúvida, há aspectos que merecem ressalvas. Como mencionado nos últimos “posts” e reconhecendo as restrições enfrentadas, poderíamos avançar mais na liderança dos debates para as mudanças estruturais do futebol brasileiro que tanto nos beneficiaria. Entendo que deveríamos fazer um debate mais aprofundado sobre novas mídias e TV levando em conta o tamanho da nossa torcida e o fator “consumidor” inerente a todas elas. Poderíamos também (aqui reconheço que é um pleito quase pessoal, sem eco na torcida) evoluir na questão do modelo de jogo. Se faz sentido abrir mão do nosso DNA do século XX de um jogo mais arejado e que nos fez merecer a alcunha de Academia ou toleraremos esse jogo mais “árido” em troca “apenas” do resultado? Por fim, entendo que poderíamos estar mais conectados à torcida buscando (mesmo que sem êxito, mas demonstrando interesse junto aos órgãos competentes e/ou terceiros) diminuição do preço dos ingressos para maior ocupação do Allianz, retomada da maior festa popular fora do estádio na Rua Palestra Itália, entre outros aspectos. 

        Porém, essa gestão deixa como maior legado (após um primeiro mandato titubeante) o caminho da responsabilidade financeira, do investimento em alicerces futuros como base e CT, da aposta em valores da base, das contratações pontuais e certeiras ao invés dos “medalhões de aeroporto”. Por mais que tenha ressalvas ao modelo de jogo, a vinda de um técnico de futebol estudioso e dedicado ao invés de profissionais reconhecidamente despreparados e ultrapassados é uma conquista de extrema importância. A postura do Palmeiras na pandemia, mantendo todos os empregos nos encheu ainda mais do orgulho de ser palmeirense. Um profissional remunerado de futebol mais afeito a dar todas as condições para o time de futebol trabalhar que ao microfone. Enfim, sabe-se que protagonismo é uma escolha, vencer é circunstancial. Muitos dirigentes, por entenderem que a vitória é uma mera questão de vontade, trocam os pés pelas mãos por não entenderem isso. Galiotte, definitivamente, entendeu. 

        Tenho tranquilidade em colocar Maurício Precivalle Galiotte como um dos maiores presidentes da história do Palmeiras e esse período 2013-2021 certamente estará marcado na história com louros verdes! 

      Os detratores “galiottistas” discordam da visão acima menos pela questão da gestão e mais pela proximidade com a sucessora. Este “blogueiro” lamenta profundamente que Galiotte e Nobre não estejam juntos. Improvável, quase impossível, mas tomara que o tempo recoloque os 2 no mesmo barco novamente. De qualquer forma, o fato é que Leila Mejdalani Pereira é a presidente do Palmeiras. Pois bem, vamos falar de futuro. 

      Uma ruptura já parece clara. A de comportamento. A postura mais sóbria dos últimos presidentes será substituída por uma personagem mais egocêntrica, afeita às redes “antissociais” e, por consequência, provavelmente mais suscetível aos ruídos raivosos da torcida. 

       Ficam, portanto, legítimas dúvidas quanto ao próximo triênio, provável sexênio. Como a presidente se comportará com uma derrota impactante (que certamente ocorrerá)? Como a mandatária se comportará com a frustração de um título perdido (que certamente ocorrerá)? Cairá na tentação do atalho ou continuará no caminho (vale ler o “post” “E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho” - http://priscopalestra.blogspot.com/2021/03/e-mais-uma-vez-jesus-aponta-o-caminho.html?m=1) que nos levou a 2 taças continentais? Como será o comportamento da liderança após os gritos irracionais da torcida organizada (patrocinada pela presidente) pedindo a cabeça de jogador e técnico hora sim, hora também? 

        Enfim, quem viver, verá. É realmente intrigante que ainda tenhamos dúvidas sobre qual caminho seguir mesmo após uma enxurrada de taças alviverdes e a derrocada de alguns rivais (que percorreram o atalho “medalhístico”). O torcedor palmeirense, em maioria, ainda tem uma queda por nomes “bombásticos” e uma certa inveja quando a imprensa anuncia um nome desses em um rival. Enfim, paixão não se explica. Mesmo que não correspondida. Como torcedor, confesso que preferiria que essa paixão fosse levada na direção de um jogo de futebol mais “acadêmico”. Mas, fatos são fatos. Nossa torcida (ainda) gosta de medalhão e tolera um jogo chinfrim “apenas” pelo resultado. É essa reverberação absurda das redes antissociais e seus enormes “decibéis” que chegarão aos ouvidos da presidente. Confesso que tenho enorme receio do futuro. Torcida inquieta e cada vez mais “mimada” (só aceita ganhar), presidente egocêntrico e com menor (aparentemente) equilíbrio emocional fazem uma combinação explosiva que podem ter consequências nefastas no futuro. 

        Para ser justo, os primeiros dias do mandato vão na direção correta. Ajuste de elenco sabendo separar gratidão de entrega futura e contratações de jovens valores. Evidente que o momento é muito tranquilo. Sem jogos e com um título maiúsculo conquistado há menos de 30 dias. 

        Como torcer e sonhar não é proibido, tomara que ao final de 3 ou 6 anos eu possa escrever um “post” dizendo que meu receio era infundado e Leila deu continuidade à linha mestra iniciada em 2013. 

          Hoje, esse é meu maior pedido para o Papai Noel Verde, nosso San Gennaro. 

          Marcelo, o Racional