quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Continuidade ou ruptura?

        Caros amigos, 

        Mais uma temporada se encerra e o tradicional “post” de final de ano não perde a oportunidade de se fazer presente, assim como o Deyverson no nonagésimo quinto minuto na capital uruguaia... 

        Para alguns, sei disso, o texto abaixo será qualificado como uma heresia. Assim como petistas e tucanos têm pavor das comparações entre o último mandato de FHC e o primeiro de Lula sei que vou desagradar “nobristas” e “galiottistas”. Em que pese, obviamente, haver diferenças entre os 2 presidentes, o ano de 2021 nada mais é que a consequência dos acertos, erros e aprendizados colhidos desde 2013 quando Paulo Nobre assume o clube e dá o primeiro, e fundamental passo para a organização do clube. 

        Esse inesquecível período de 9 anos foi marcado por presidentes sóbrios que respeitavam dignamente o papel de “chefe de Estado” do clube. Diferentemente de dirigentes de outros clubes (ou até de dirigentes pretéritos nossos) não sentíamos vergonha quando eles empunhavam um microfone. A organização financeira também foi um pilar importante. No princípio, para fazer um time minimamente competitivo e, na sequência, para investimentos em categoria de base e estrutura física como CT, hotel e um centro físico e de reabilitação de excelência. O respeito que a Sociedade Esportiva Palmeiras goza no meio do futebol é digno de destaque. Jogadores que antes queriam distância da Marquês de São Vicente, são oferecidos por empresários que reconhecem a “vitrine” e a seriedade no pagamento dos compromissos. A “vitrine” é consequência do protagonismo assumido desde 2015, disputando com reais chances todos os campeonatos que se apresentam. 

         A diversificação de fontes de receita também é uma característica dessa última década. Patrocínio, venda de ingressos/estádio/sócio torcedor, receitas de transmissão e de venda de jogadores têm uma proporção muito saudável, diminuindo a dependência do clube em uma fonte específica. Para o torcedor mais pragmático, o período nos brindou com as taças mais cobiçadas pelos clubes brasileiros (Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil) em dose dupla. Por fim, uma característica marcante. Os 2 presidentes quebraram uma perversa escrita do futebol brasileiro e do antigo Palmeiras. Não gastaram o quê tinham e o quê não tinham no último ano de mandato no clássico “sair de bem com a torcida” e deixando a terra arrasada para o sucessor. 

         Voltando mais à gestão Galiotte e os últimos anos, sem dúvida, há aspectos que merecem ressalvas. Como mencionado nos últimos “posts” e reconhecendo as restrições enfrentadas, poderíamos avançar mais na liderança dos debates para as mudanças estruturais do futebol brasileiro que tanto nos beneficiaria. Entendo que deveríamos fazer um debate mais aprofundado sobre novas mídias e TV levando em conta o tamanho da nossa torcida e o fator “consumidor” inerente a todas elas. Poderíamos também (aqui reconheço que é um pleito quase pessoal, sem eco na torcida) evoluir na questão do modelo de jogo. Se faz sentido abrir mão do nosso DNA do século XX de um jogo mais arejado e que nos fez merecer a alcunha de Academia ou toleraremos esse jogo mais “árido” em troca “apenas” do resultado? Por fim, entendo que poderíamos estar mais conectados à torcida buscando (mesmo que sem êxito, mas demonstrando interesse junto aos órgãos competentes e/ou terceiros) diminuição do preço dos ingressos para maior ocupação do Allianz, retomada da maior festa popular fora do estádio na Rua Palestra Itália, entre outros aspectos. 

        Porém, essa gestão deixa como maior legado (após um primeiro mandato titubeante) o caminho da responsabilidade financeira, do investimento em alicerces futuros como base e CT, da aposta em valores da base, das contratações pontuais e certeiras ao invés dos “medalhões de aeroporto”. Por mais que tenha ressalvas ao modelo de jogo, a vinda de um técnico de futebol estudioso e dedicado ao invés de profissionais reconhecidamente despreparados e ultrapassados é uma conquista de extrema importância. A postura do Palmeiras na pandemia, mantendo todos os empregos nos encheu ainda mais do orgulho de ser palmeirense. Um profissional remunerado de futebol mais afeito a dar todas as condições para o time de futebol trabalhar que ao microfone. Enfim, sabe-se que protagonismo é uma escolha, vencer é circunstancial. Muitos dirigentes, por entenderem que a vitória é uma mera questão de vontade, trocam os pés pelas mãos por não entenderem isso. Galiotte, definitivamente, entendeu. 

        Tenho tranquilidade em colocar Maurício Precivalle Galiotte como um dos maiores presidentes da história do Palmeiras e esse período 2013-2021 certamente estará marcado na história com louros verdes! 

      Os detratores “galiottistas” discordam da visão acima menos pela questão da gestão e mais pela proximidade com a sucessora. Este “blogueiro” lamenta profundamente que Galiotte e Nobre não estejam juntos. Improvável, quase impossível, mas tomara que o tempo recoloque os 2 no mesmo barco novamente. De qualquer forma, o fato é que Leila Mejdalani Pereira é a presidente do Palmeiras. Pois bem, vamos falar de futuro. 

      Uma ruptura já parece clara. A de comportamento. A postura mais sóbria dos últimos presidentes será substituída por uma personagem mais egocêntrica, afeita às redes “antissociais” e, por consequência, provavelmente mais suscetível aos ruídos raivosos da torcida. 

       Ficam, portanto, legítimas dúvidas quanto ao próximo triênio, provável sexênio. Como a presidente se comportará com uma derrota impactante (que certamente ocorrerá)? Como a mandatária se comportará com a frustração de um título perdido (que certamente ocorrerá)? Cairá na tentação do atalho ou continuará no caminho (vale ler o “post” “E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho” - http://priscopalestra.blogspot.com/2021/03/e-mais-uma-vez-jesus-aponta-o-caminho.html?m=1) que nos levou a 2 taças continentais? Como será o comportamento da liderança após os gritos irracionais da torcida organizada (patrocinada pela presidente) pedindo a cabeça de jogador e técnico hora sim, hora também? 

        Enfim, quem viver, verá. É realmente intrigante que ainda tenhamos dúvidas sobre qual caminho seguir mesmo após uma enxurrada de taças alviverdes e a derrocada de alguns rivais (que percorreram o atalho “medalhístico”). O torcedor palmeirense, em maioria, ainda tem uma queda por nomes “bombásticos” e uma certa inveja quando a imprensa anuncia um nome desses em um rival. Enfim, paixão não se explica. Mesmo que não correspondida. Como torcedor, confesso que preferiria que essa paixão fosse levada na direção de um jogo de futebol mais “acadêmico”. Mas, fatos são fatos. Nossa torcida (ainda) gosta de medalhão e tolera um jogo chinfrim “apenas” pelo resultado. É essa reverberação absurda das redes antissociais e seus enormes “decibéis” que chegarão aos ouvidos da presidente. Confesso que tenho enorme receio do futuro. Torcida inquieta e cada vez mais “mimada” (só aceita ganhar), presidente egocêntrico e com menor (aparentemente) equilíbrio emocional fazem uma combinação explosiva que podem ter consequências nefastas no futuro. 

        Para ser justo, os primeiros dias do mandato vão na direção correta. Ajuste de elenco sabendo separar gratidão de entrega futura e contratações de jovens valores. Evidente que o momento é muito tranquilo. Sem jogos e com um título maiúsculo conquistado há menos de 30 dias. 

        Como torcer e sonhar não é proibido, tomara que ao final de 3 ou 6 anos eu possa escrever um “post” dizendo que meu receio era infundado e Leila deu continuidade à linha mestra iniciada em 2013. 

          Hoje, esse é meu maior pedido para o Papai Noel Verde, nosso San Gennaro. 

          Marcelo, o Racional

quarta-feira, 17 de março de 2021

Balanço das Prioridades

          Caros amigos,

Em 2018, ainda sob os efeitos do histórico gol de Deyverson em São Januário, publiquei um “post” intitulado “A Necessidade da Evolução Contínua. A Falácia da Hegemonia no Brasil”. À época elenquei 10 tópicos que, na minha visão, deveriam merecer atenção da comunidade palestrina. Com o intuito de poupar o tempo do raro leitor, apenas citarei os tópicos e abordarei somente sobre as evoluções, ou não, dos mesmos abaixo. Caso haja interesse no maior esclarecimento da razão de cada item, peço acessar o “post” do ano retrasado e do ano passado. Em 2019, acrescentamos um décimo primeiro item (simpatia). Sendo assim, vamos a eles:
 
1 – Necessidade de mudanças estruturais
 
Sem evolução. Continuamos com a opção de compor com o sistema. Nosso treinador teceu críticas educadas, porém contundentes, acerca do calendário brasileiro há poucos dias. Todos sabem que ele tem razão e, por consequência, ele fala e a instituição cala. Já escrevi isso diversas vezes e repito. O Palmeiras não deveria liderar a mudança por benevolência, mas por pragmatismo. Seria o clube que mais se beneficiaria de uma estrutura mais profissional. Nunca tivemos ajuda estatal para construir estádio (aliás, como demorou o alvará para “reformarmos” com dinheiro privado), nem patrocínio público em camisa. Quem vocês acham que gostam mais do STJD, arbitragens polêmicas, calendário apertado, gramados ruins? O Palmeiras é que não é.
 
2 – Priorização do Brasileirão
 
Evoluímos. Mesmo fazendo todos os jogos da temporada, não desistimos do campeonato e jogamos à vera até o momento que perdemos as chances. Nesse aspecto, talvez a chegada de um europeu tenha ajudado já que eles, culturalmente, valorizam demais a liga nacional.
 
3 – O Palmeiras não tem Mundial
 
Apêndice do que foi escrito acima. A rigor, nem tempo para “priorizar” essa competição tivemos. Apesar da “pilha” dos rivais naquela semana de fevereiro, sem comentários adicionais.
 
4 – Modelo de jogo
 
Evoluímos. Diferentemente de 2019 onde havíamos ficado no mesmo lugar (bastante explorado no “post” “A gente não quer só comida...”), em 2020, tardiamente é verdade, buscamos um treinador que entregue um modelo de jogo mais antenado aos dias atuais. Cabe a ressalva que ainda não podemos afirmar que Abel será capaz de fazer isso (não por culpa dele, mas por falta de tempo de treinamento), porém, mesmo na insanidade do calendário, já percebemos a capacidade de gestão de pessoas e vestiário e de proporcionar soluções criativas em alguns jogos.
 
5 – Campeão, mas podemos melhorar
 
Evoluímos, conforme item anterior (modelo de jogo).
 
6- Novas mídias e TV
 
Estável, com tendência de involução, na opinião deste “blogueiro”. O mercado tradicional está em disrupção. Havia, basicamente, um “player” de transmissão. Feita a importante ressalva das toxicidades de um ambiente monopolístico, o modelo anterior “fechava” todas as quartas e domingos do ano inteiro. Jogos excelentes (finais de Libertadores) e jogos desinteressantes (fase de classificação de Estaduais) numa espécie de pacote anual, numa emissora com alta audiência e que atraía altas cotas de patrocínio. Nesse ambiente controlado, longe de ser perfeito, existiam alguns tetos que impediam que um clube ganhasse infinitamente mais que o outro (grifa-se o infinitamente). Com o apoio do Palmeiras, esse modelo acelerou sua implosão em 2020. O “novo” modelo pressupõe múltiplas plataformas e maior independência dos clubes na forma de rentabilizar a transmissão dos seus jogos. Tendo em vista que o processo está andando à revelia de alguns clubes, pressupõe-se que união deles é algo bastante inalcançável no médio prazo. Minha visão é que estão implodindo um modelo sem ter outro melhor estruturado no lugar. Esquecem da característica “consumidora”, pouco fiel dos torcedores brasileiros que, em geral, só apoiam “na boa”, da dificuldade em acompanhar e pagar em várias plataformas (Conmebol TV, PPV do Carioca, Premiere, PalmeirasTV – se for o caso) e que no modelo livre de negociação a diferença de remuneração entre os clubes aumentará ainda mais, algo que ferirá de morte a competitividade do futebol brasileiro. Para quem duvida, vale a leitura desse artigo de 2011 (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1303201105.htm). Resumidamente, o Botafogo se empolgou com os R$ 20 milhões a mais que ganharia na negociação isolada com a TV em comparação com a anterior, feita em bloco com o Clube dos 13 que estava sendo implodido. Questionado que a diferença para o Flamengo iria triplicar, o presidente Maurício Assumpção hesitou e disse que, para ele, só importava o Botafogo. Em uma década, simplesmente não há mais competição entre Flamengo e Botafogo. Esse episódio ao menos, garantia um aumento absoluto na remuneração. A “aposta” desse “blogueiro” é que será muito improvável o aumento absoluto (pelas questões elencadas acima) e quase certo que haverá aumento na distância relativa entre os clubes. No limite, estamos apoiando o que vai nos prejudicar no futuro.
 
7 – Ocupação do Estádio
 
Face a pandemia, não cabe análise.
 
8 – Avanti
 
Face a pandemia, nesse ano, não cabe análise.
 
9 – Hegemonia
 
Esse aspecto aborda o risco da soberba que tanto atingiu outros clubes. Em 2020, não vimos traços dessa característica. Evoluímos.
 
10– Pacificação Política
 
Foi um ano mais pacífico, sem dúvida. Como não frequento o clube, corro o risco de ser bastante superficial, mas me parece um pouco a paz do cemitério. Apesar das mágoas e dissabores ainda estarem presente entre o atual e o ex-presidente, a oposição tem pouca densidade eleitoral. Na prática, tudo caminha para a eleição tranquila da candidata da situação.
 
11 – Simpatia
 
Mesmo sem a contratação de um profissional de “Relações Institucionais”, evoluímos sensivelmente, inclusive no aspecto relativo já que o rival carioca vem se perdendo nesse item. Se no ano passado abusamos de atitudes e notas geladas e desconexas do orgulho de ser palmeirense, nesse ano a mudança foi radical. A forma como conduzimos a crise na pandemia em relação aos pagamentos de salários, a empatia com os funcionários, tomando a decisão de não desligar ninguém nesse momento difícil, foi de encher de alegria o seu torcedor e lembrar do que faz um clube especial. Um clube vende sonhos, vende orgulho, vende uma forma de querer estar junto dos seus. E são esses momentos que fortalecem nossa essência. Evoluímos sensivelmente. 
 

 

Caros amigos,
 
Se em 2019, a gestão Galiotte mereceu críticas, nesse ano observamos mais acertos do que erros. Percebam que não abordei resultado, que são circunstanciais, mas aspectos importantes que deveriam estar na pauta de todo candidato que aspirar a presidência da Sociedade Esportiva Palmeiras. Os resultados também foram melhores, talvez pelo motivo de termos evoluído em alguns pontos acima, mas, paradoxalmente, não é o mais importante. O importante é o que estamos fazendo para continuarmos protagonistas.
 
E 2021?
 
Bem, vai depender do caminho escolhido (peço ler o “post” E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho...)
 
Primeiramente, falando de campo, avaliar se Abel conseguirá ampliar o repertório dessa equipe sem tempo para treinar. Esse é um desafio imposto a maioria dos clubes, mas como o Palmeiras está saindo de anos de futebol primitivo, nosso desafio pode ser um pouco maior.
 
Depois, interessante avaliar como serão as reposições das inevitáveis perdas de jogadores no meio do ano. Serão contratações como Viña ou como Ramires? Não só reposição, mas o próprio fortalecimento do elenco. Penso que temos posições carentes e, particularmente, acho o plantel muito baixo. Na minha visão, faz sentido aumentar a estatura média, especialmente no ataque. Aprendemos com 2020? Se sim, lembro que como efeito colateral positivo teremos menos pressão financeira e menos dependência de fontes de receita (como Crefisa e seu empréstimo, por exemplo). Se sim, cabe ressaltar que a escolha de analistas de desempenho (“olheiros” dos tempos modernos) e de uma comissão técnica permanente, hoje liderado por Andrey Lopes, o “Cebola”, são assuntos da mais alta importância nos dias atuais, tão (ou mais) importantes que a escolha de técnico e jogadores.
 
Outro ponto de enorme incerteza é a continuidade de um calendário insano. Além do implacável “quarta e domingo” até o final do ano (em avançando nas competições) nesse ano haverá um complicador adicional. Teremos a maior Copa América da história, com 8 jogos, ao invés dos tradicionais 6 jogos, e inéditos 10 jogos de Eliminatórias numa temporada. Adicionalmente, caso mantida, uma competição Olímpica Sub-23. O Palmeiras será ‘mutilado” por sucessivas convocações, inclusive de outros países da América do Sul.  
 
Temos uma boa janela pela frente. Os clubes foram dizimados financeiramente pela pandemia, o Palmeiras não foi diferente, mas boa parte das nossas perdas foram atenuadas pelas premiações da temporada 2020. No aspecto relativo, temos chance de nos distanciar ainda mais de alguns rivais e, com competência, brigar sem inferioridade (em campo) com o Flamengo e, talvez, Atlético-MG que deve incomodar no primeiro ano de “doping” financeiro.
 
Diferentemente do ano passado, tenho uma visão mais otimista do futuro. Não pelos títulos recentemente conquistados, mas por acreditar (eu sei, tem fé aqui...) que alguns aprendizados foram conquistados e não cometeremos os mesmos erros no futuro.
 
A observar! Seremos espectadores do dia a dia...capítulo vivo da história.
 
Marcelo, o Racional

terça-feira, 9 de março de 2021

E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho...

Caros amigos,

Nessa temporada atípica, o “post” tradicional esperou a conclusão de todos os jogos, algo que só ocorreu no tardio 07 de março, data esta que marcou (mais) um título alviverde. Para iniciar, peço licença para algumas citações bíblicas.

Caminhos são passagens, veredas ou vias que servem para conduzir a um determinado fim ou lugar. Na Bíblia há diversas referências sobre caminhos. Ora descreve os caminhos certos, ora detecta os caminhos errados da vida; adverte-nos para o perigo do caminho dos pecadores e aponta para o caminho dos justos...

 

De modo geral, os caminhos na Bíblia podem ser entendidos de duas maneiras distintas: Caminhos divinos e Caminhos terrenos. Esses trajetos são opostos entre si e conduzem em direções contrárias. Seguem alguns contrapontos que encontramos nas Escrituras:

 

· Caminho direito X caminhos tortuosos (Isaías 26:7; 59:8)

· Caminhos de paz X caminhos de destruição (Lucas 1:79; Romanos 3:15-17) 

· Caminho estreito X caminho largo (Mateus 7:13-14)

· Caminhos de vida X caminhos de morte (Jeremias 21:8; Provérbios 15:24)

· Caminho da justiça X caminho dos injustos (Provérbios 12:28; Ezequiel 18:29)

· Caminhos eternos X caminhos maus (Salmos 139:24; 119:101)

 

Percebe-se, portanto, a infinidade de caminhos possíveis à humanidade. Ora, perguntaria o mais atento leitor, o que isso tem a ver com futebol??

Explico...Já com a devida vênia de citar o rival, nosso sucesso está intimamente ligado ao dia da final da Champions League (vencida pelo Liverpool) de 2019. Nessa data foi anunciada a chegada de Jorge Jesus ao nosso futebol. E, desde então, as placas tectônicas, que no futebol brasileiro insistem em não se mover, não só se moveram como chacoalharam a terra e o mar, num tsunami esportivo poucas vezes visto.

Tentando resumir cronologicamente os fatos, o Palmeiras é o Campeão Brasileiro de 2018. Além de aumentos salariais vultuosos aos principais jogadores, o Palmeiras optou por renovar o contrato de todos os jogadores do elenco e, não satisfeito, trouxe mais jogadores ao seu já grandioso plantel, desde jogadores caros como Carlos Eduardo a jogadores “inativos” como Ricardo Goulart. Obviamente, o título no ano anterior não motivou o clube a questionar o trabalho do técnico e o futebol pobre, para ser elegante, era aceito pela coletividade.

O curioso é que esse “all in” financeiro, aliado a contratações questionáveis e futebol sem brilho estavam dando certo. O Palmeiras joga a nona rodada do Brasileirão no dia 12/06, vence seu jogo contra o Avaí em casa e vai para o recesso da Copa América com 8 pontos de vantagem sobre seu maior rival atual. E, se está dando certo, por qual motivo não aumentar a dose? Dois dias depois, no dia 14/06, o Palmeiras anuncia mais um jogador “inativo”, Ramires, por 4 temporadas. No final de julho, repatria Vitor Hugo e alguns comunicadores “caça-cliques” já vaticinam o Palmeiras como Hendecacampeão Brasileiro.

Mas, Jesus voltou à Terra. Ao invés de multiplicar seus conhecimentos na Galileia, dessa vez, ele escolheu o Rio de Janeiro...

Sim, foi constrangedor...Além do rival fazer 24 pontos a mais em 29 jogos, sofremos duas derrotas acachapantes que ocasionaram a queda de 2 técnicos (Scolari e Mano). Mais que a perda do título, ficava nítida a incapacidade de competir no mesmo nível que o rival. Sem as receitas dos títulos dos campeonatos, com um elenco inchado e caro e um futebol paupérrimo, iniciávamos 2020 com a necessidade de mudanças.

Sempre haverá a legítima dúvida se foi por necessidade ou por convicção. Vale outro “post” para tratar desse ponto, mas o fato concreto é que a mudança foi implementada. Implementada de forma rápida e, até certo ponto, agressiva.

Se até 2019, a ideia era vender um Fernando (base) para o Shaktar e contratar um Carlos Eduardo, em 2020 o Palmeiras se desfez de cerca de 2 dezenas de jogadores. De Deyverson a Diogo Barbosa. De Borja a Guerra. De Vitor Hugo a Hyoran. De Fabiano a Erik. Até o maior expoente do título de 2018, Bruno Henrique, saiu. Até o maior jogador da década, Dudu, saiu.

Como “reposição”, contratações pontuais como Viña e Kuscevic e apenas uma contratação mais cara, Rony. Na opinião deste “blogueiro” um jogador comum, sem brilho técnico, mas, verdade seja dita, com participações decisivas na temporada. Mas, se perdemos 20 jogadores, como repor com apenas alguns? A resposta esteve na base. Evidentemente, isso só foi possível porque o Palmeiras - primeiramente com Paulo Nobre que iniciou a “descupinização” e primeiros investimentos e, posteriormente, com Galiotte que investiu cerca de R$ 100 milhões nos últimos anos - depois de décadas de negligência com o assunto, mudou sua postura e essa base, que já vinha demonstrando seu valor desde meados da década passada, supriu o elenco profissional com espantosos 12 jogadores, recorde na centenária história. Vale uma menção para lá de honrosa a João Paulo Sampaio, que assumiu a coordenação da base em 2015, função que cumpre até hoje. Personagem com pouca visibilidade, mas uma das figuras mais importantes da reconstrução palestrina. Nosso agradecimento eterno.

Com o desinvestimento de 40% na folha de pagamento, o Palmeiras deixava de figurar entre os favoritos nas principais competições pelos comunicadores esportivos e redes antissociais. Sendo franco, até o Anderson Barros, à época do recesso pandêmico, dizia que a reformulação indicava conquistas em 2021, mais provável, 2022, dada sua magnitude. O clássico plantar hoje para colher amanhã.

E qual foi o resultado da temporada? Pela primeira vez, desde o Santos em 1963, um time faz todos os jogos possíveis em uma temporada. Concluímos os 79 jogos. Mais que isso, ganhamos a maior obsessão, como a torcida - que canta e vibra - grita nos estádios. De quebra, vencemos mais uma Copa do Brasil, torneio de maior premiação no continente. De aperitivo, dois títulos sobre o maior rival local (Florida Cup e Paulista).

Isso quer dizer que está tudo certo?

Não, definitivamente, não. Sabemos que o Flamengo, apesar do título Brasileiro conquistado sem a tranquilidade que seu elenco sugere, tropeçou nas suas pernas em 2020 (aliás, uma espécie de Palmeiras 2019), sabemos que os cruzamentos dos torneios foram favoráveis enquanto encontrávamos o melhor jogo. Não podemos esquecer que a busca por um jogo mais antenado aos dias atuais só ocorreu em novembro, após a saída do inexplicável Vanderlei Luxemburgo. Pelo calendário insano, nem conseguimos enxergar se Abel Ferreira é um técnico com qualidades para deixar o jogo do Palmeiras mais versátil, mas é uma tentativa no caminho correto, sem dúvida. De qualquer forma, nesse ano, “apenas” com sua gestão de pessoas e de entorno acima da média de seus pares, o campo já deu alguma resposta.

Envelhecer traz poucas, mas importantes vantagens. Um clube centenário tem como observar os resultados quando trilhou um caminho ou o outro. Mais que isso, pode observar também o que aconteceu com os adversários quando escolheu um ou outro caminho.

Na Parmalat, tínhamos um Cafu ou um Rivaldo vindo de times grandes brasileiros (ainda jovens em início de carreira), mas tínhamos jogadores vindo do Guarani, União de Araras ou Rio Branco de Americana, como Djalminha, Luisão, Edilson, Roberto Carlos, Flavio Conceição, entre outros. Em 2016, saímos da fila de 22 anos sem Brasileiro com Moisés, Tchê Tchê, Vítor Hugo, Mina, Gabriel Jesus, Jaílson, Roger Guedes, entre outros. Em 2020, saímos da fila de 21 anos de Libertadores com garotos da base com participações fundamentais como Gabriel Menino, Wesley, Veron, Patrick de Paula, Danilo, etc.

Por outro lado, os 2 últimos “all in” fracassaram. Em 2009, com Belluzzo, angariamos uma segunda divisão 3 anos depois junto com uma improvável Copa do Brasil (à época sem os melhores times brasileiros que disputavam a Libertadores). A outra foi em 2019 (já citada acima) e que sofreu um atropelamento por parte do time carioca.

Em relação aos rivais, podemos citar o São Paulo, tricampeão brasileiro seguido por pontos corridos com Mineiro, Josué, Fabão, Aloísio, Alex Pirulito e o dos últimos 10 anos de fila com Rivaldo, Kaká, Adriano, Daniel Alves, Hernanes, Ganso e Pato.

Para não cansar os raros leitores que chegaram até aqui, não citarei mais exemplos, mas posso garantir que são inúmeros.

Claro, tudo é incerto. O futuro é incerto. No esporte, então, mais ainda. Mas, isso jamais poderia ser usado como desculpa para a aleatoriedade ou “terceirização” da gestão pelos clamores externos, sejam eles da torcida, da mídia, dos sócios ou de quem quer que sejam. Escrito de outra forma, temos que escolher as estradas que percorreremos. E eles são claros.

O caminho mais difícil, o da construção, o da paciência, com jogadores com “fome”, que olham o clube para cima, com a necessidade de extrema competência na hora de contratar, absurda competência no trabalho de base, o reconhecimento de seu tamanho na “cadeia alimentar” do futebol atual (menor que Europa e maior que América do Sul), a necessidade de oxigenar o elenco anualmente já que, até por aspectos culturais, os jogadores brasileiros se confortam com as primeiras conquistas especialmente se não conseguirem o “prêmio” de serem negociado para a Europa. Para coordenar tudo isso dentro de campo, um técnico minimamente conhecedor da forma como esse esporte é praticado atualmente.

O outro caminho é o atalho. Sempre mais simples, mais fácil. O aplauso impensado da torcida e da crítica no começo. O escudo para o dirigente. A tentativa que a grife, por algum motivo mais ligado à fé que aos fatos, supere os últimos maus trabalhos e finalmente vinguem no nosso clube de coração.

Esse “post” se concentrou nos resultados/protagonismo, mas vale citar também os reflexos financeiros de cada caminho. Diversos exemplos de clubes que, por mais que tenham ganho um ou outro título esporádico ao escolher o atalho, tiveram (ou têm) de lidar com situações gravíssimas com perda de competitividade flagrante, sendo o maior exemplo atual o Cruzeiro.

Penso que ficou evidente que esse “blogueiro” não está defendendo 30 jogadores da base no elenco ou que o clube nunca faça uma aposta financeiramente mais arriscada. O ponto central aqui é debater a “linha mestra” do clube, o conceito por trás das decisões. Por mais que o Palmeiras tenha contratado Rony, me parece inequívoco que o clube escolheu outra estratégia em 2020.

Enfim, Jesus nos deixou novamente. Saiu do Rio de Janeiro e foi pra Lisboa, repetindo D. João VI em 1821. Mas, como o Messias há mais de 2 milênios, deixou seus ensinamentos sobre os caminhos. Parafraseando São Lucas, temos os caminhos da paz x caminhos da destruição. A escolha é nossa!

E, obrigado, Jesus! Graças a sua vinda, entre outros motivos, ganhamos a Glória Eterna! Mais importante, essa enorme conquista talvez tenha conquistado mais alguns defensores do caminho mais difícil. Pessoalmente, como uma voz antiga e quase isolada nesse debate, ficaria extremamente feliz!

O futuro dirá!

 

Marcelo, o Racional

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Simpatia é quase amor

Caros amigos,

Em 2018, ainda sob os efeitos do histórico gol de Deyverson em São Januário, publiquei um “post” intitulado “A Necessidade da Evolução Contínua. A Falácia da Hegemonia no Brasil”. Com o intuito de poupar o tempo do raro leitor, citarei os itens e escreverei apenas sobre as evoluções, ou não, dos mesmos abaixo. Caso haja interesse no maior esclarecimento da razão de cada item, peço acessar o “post” do ano passado. Sendo assim, vamos a eles:

1 – Necessidade de mudanças estruturais

Regredimos. O Palmeiras se aproximou ainda mais do “sistema” com a pacificação com a Federação Paulista.

2 – Priorização do Brasileirão

Regredimos. O discurso oficial desse ano destacou que os investimentos foram fortes para buscar os títulos que o palmeirense mais sonha. Tudo isso culminou com um trabalho irreconhecível de Mattos em 2019. Seus críticos mais ferozes podem argumentar que 2019 apenas deu visibilidade ao que era ruim (não é a opinião do autor do “post”), mas, é indiscutível que 2019 foi um ano recheado de estranhezas (para ser elegante). A ida e vinda de Ricardo Goulart, a contratação de Carlos Eduardo por uma bagatela significativa (a segunda maior da história), a contratação arriscada de Ramires (cerca de 30 jogos em 30 meses), a venda de valores da base...Tudo isso somada a intenção de manutenção de 100% do elenco de 2018 (mesmo os mais contestados), além do não aproveitamento da base fez com que o antigo Mittos se desfizesse como um castelo de areia. A ausência de resultados esportivos (que reduz receita) e o aumento grande nas despesas deve fazer o Palmeiras fechar com prejuízo financeiro em 2019, a primeira vez desde que ele chegou em 2015. Sinceramente, não vejo sua passagem inteira como essa tragédia toda não, mas, não posso deixar de compreender sua saída em 2019. Ele abusou, com a conivência do clube, creio eu. Ficou insustentável.

3 – O Palmeiras não tem Mundial

Apêndice do que foi escrito acima. Sem comentários adicionais.

4 – Modelo de jogo

Ficamos no mesmo lugar. Bastante explorado no último “post” “A gente não quer só comida...”

5 – Campeão, mas podemos melhorar

Ficamos no mesmo lugar, conforme item anterior (modelo de jogo).

6- Novas mídias e TV

Avançamos em parte. Fizemos 2 excelentes contratos. Um de marca de camisa (Puma) e o contrato de TV, esticando a corda até o limite, mas com bons resultados, elogiados até pelos rivais. Entretanto, no restante do marketing possível (exceto Crefisa), não fomos brindados com relevantes novidades.

7 – Ocupação do Estádio

Regredimos. Continuamos com ingresso caro. A pior performance esportiva fez o resto, ou seja, diminuiu o público no estádio.

8 – Avanti

Regredimos. As mesmas queixas do ano anterior. Infiro que com menos associados. Campanhas de marketing tímidas para retomar o fantástico impulso de 2015.

9 – Hegemonia

Regredimos. No campo e nos números financeiros.

10– Pacificação Política

Sem avanço. O processo vinha se deteriorando desde dezembro de 2016 e, após as últimas eleições, as fraturas estão expostas. Impossível vislumbrar algo positivo até o final de 2021, pelo menos.


Esses foram os 10 pontos citados no ano passado. Peço licença para acrescentar mais um:

11 – Simpatia

Segundo o dicionário, simpatia é afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas. Pois bem, o Palmeiras se afastou da similitude no sentir e pensar da sua torcida e da sociedade como um todo. Esse processo não é exclusividade desse ano, mas, de uns tempos para cá. Para citar alguns exemplos, o posicionamento frio quando as autoridades resolveram fechar a Rua Palestra Itália. O Palmeiras orgulhava-se da maior festa de estádio pré-jogo do país, algo que possibilitou o espetáculo de 02 de dezembro de 2015, onde mais de 10 mil pessoas empurraram o Palmeiras do lado DE FORA do estádio na final da Copa do Brasil. O Palmeiras se posiciona de costas para seu povo e diz que compreende e respeita a decisão das autoridades. Além disso, há anos, o ingresso mais caro do país. Imagino a quantidade de apaixonados que, depois do Velho Palestra, nunca mais pisaram lá. Não, não me tornei socialista de dinheiro alheio. Ocorre que o estádio invariavelmente tem 10 mil lugares vazios. Imagino as dificuldades (inclusive com a construtora), mas essa era uma briga para estar junto com seus aficionados, usando a mídia a favor. Preferimos, mais uma vez, o outro lado. Mulher de jogador agredido e a nota do Palmeiras congelava os olhos de quem lia, tamanha a frieza. Único estádio do Brasil que presenteia a torcida adversária com uma rede. Primeiro estádio no Brasil onde o MP proíbe a torcida visitante de outro estado a participar do jogo. Em ambas as oportunidades, compreensão com as autoridades e as costas para o torcedor. Uma campanha publicitária que exalta a inveja dos outros (cuidado com o soberano, hein...). Para coroar tudo isso, há décadas jogando um futebol que só atrai palmeirense convertido. Enfim, penso que é de suma importância a contratação de um profissional de relações institucionais. Alguém com tamanho e competência para se reconectar com a torcida e, porque não, com a sociedade. Inúmeros clubes aqui e lá fora têm uma série de ações bacanas, com o intuito de fortalecer o maior patrimônio que é o amor de uma torcida pela marca. Algumas ideias bastam copiar, outras adaptar à nossa realidade.
Regredimos em 2019 nesse quesito também.

Caros amigos,

É com muita tristeza que, de acordo com os itens acima, nossa instituição regrediu. Soma-se a isso a redução da transparência com a não divulgação de balancetes, a inversão da tendência de superávits anuais, a sensação do ressurgimento do SVIP (Serviço de Vazamento de Informações do Palmeiras) e a maior proximidade do patrocinador com a torcida organizada. Sendo assim, pode-se constatar que o primeiro ano do segundo mandato de Galiotte foi ruim. Ficou longe de arrancar suspiros.

E 2020?

Bem, vai depender dele em primeiro lugar, da diretoria em segundo, dos profissionais em terceiro e, por fim, das escolhas da torcida, que, como penso, empresta apoio tácito às ações. 

Com Jorge Jesus e Sampaoli, abriu-se uma janela de oportunidade de libertar o Palmeiras do sequestro do futebol chinfrim. Não podemos perder essa oportunidade. Penso que o processo não será linear. Uma entrevista falando do DNA ofensivo aqui (bom), um maior aproveitamento da base ali (bom) e a vinda de Vanderlei Luxemburgo para embaralhar tudo. Contratamos baseados mais na fé que nos trabalhos dos últimos 10 anos. Como ele é um carioca que gosta de Carnaval, o título do “post” vai em sua homenagem. Minha contribuição esotérica (a la Roberio de Ogum) para ajudar a dar certo...

Porém, essa é a única contribuição do meio externo. Todas as demais dependerão da gente. Esse “post” tem a intenção de contribuir com o debate, elencando os aspectos que deveríamos focar nos próximos anos. Ainda somos protagonistas. Mas, em 2019 perdemos espaço.

Mãos à obra para reconquistar!

Marcelo, o Racional

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A gente não quer só comida

Caros amigos,

E chegamos a mais um fim de ano. Época dos nossos tradicionais “posts”. E que ano...Ou melhor, e que semestre! Até a Copa América as coisas iam razoavelmente bem...Mas, um tsunami varreu o futebol brasileiro em julho. Sim, um tsunami dado sua força e “imprevisibilidade” (espero conseguir explicar as aspas no texto).

Difícil precisar exatamente quando, mas, lá pelos meados da década passada, nosso futebol foi sequestrado por um modelo de jogo primitivo. O principal símbolo foi Muricy Ramalho e seu tri pelo São Paulo. Resumidamente, defesa superprotegida, ligação direta e confiança nos cruzamentos e/ou “casquinhas” de centroavantes, buscando o gol redentor, o gol que garantia os 3 pontos. A enorme maioria dos jogos se traduzia em sofrimento, não importava se contra o Mirassol ou contra o Barcelona. O “único” enorme prazer era a vitória. E ela bastava. Na sequência, nesse ciclo vicioso, as vitórias favoreciam os técnicos e seus discípulos e vieram Mano, Tite, Marcelo Oliveira, Carille e que tais. As vitórias entorpeciam o torcedor e interditavam o debate. Como questionar “inquestionáveis” campeões.

Vindo de uma seca de títulos, era bastante desafiador para nosso amado time “inovar”. Era mais confortável, nadar na mesma raia dos adversários. Escrevendo em outras palavras, tentar jogar o melhor futebol medíocre do país. Além disso, nossa Libertadores foi jogada de forma, diríamos, menos arejada, apenas 3 anos depois da formação de um dos maiores esquadrões de nossa centenária história. Era a fome com a vontade de comer. Com Marcelo Oliveira, Cuca e Felipão, conquistamos 3 importantíssimos títulos nacionais.

Na prática, como ousar dizer que não bastava. Raras, raríssimas vozes abordavam a necessidade de fazer algo além, ainda mais com a vantagem financeira e a calma que a “barriga cheia de títulos” gera ou deveria gerar. Permitam-me, perdão, uma autocitação já que a questão de modelo de jogo foi abordada diversas vezes em “posts” que podem ser lidos neste “blog” e que foram publicados horas após as conquistas. De qualquer forma, esse pensamento de resgate do nosso DNA, de jogo propositivo, impositivo que nos permite com orgulho ostentar a alcunha de “A Academia” não ecoava nos corações e mentes da coletividade. Nem na fila tivemos times que trocavam menos de 100 passes por jogo. Toleramos isso. O carrinho na lateral que era símbolo do rival da Zona Leste, virou orgulho na Zona Oeste também.

As diretorias, em sua maioria, têm enorme receio em confrontar os torcedores. Como havia um apoio tácito da coletividade, a estratégia do Palmeiras em 2019 foi reforçar a aposta feita nos anos anteriores. Manutenção do modelo de jogo, renovação de contrato de todos os jogadores de 2018, aumento robusto para os 2 melhores jogadores do ano passado e contratações (falaremos disso em outro “post”) que se enquadravam nessa engrenagem. Como dar errado?

E não é que quase deu certo, novamente? Até a interrupção para a Copa América, o Flamengo de Abel Braga estava a impressionantes 8 pontos de diferença em apenas 9 rodadas. Éramos líderes incontestáveis, enfileirando uma série de vitórias magras, intercaladas com alguns espasmos de futebol (como contra o Fortaleza e Santos). Sim, continuávamos jogando o melhor futebol medíocre do Brasil.

Porém, e infortunadamente para nós, alguém no Flamengo percebeu que se não mudasse de raia, perderiam novamente. Fizeram uma aposta alta, dessas que só são permitidas quando a certeza de fracasso é certa, não por convicção. Trouxeram um técnico com o objetivo de propor algo parecido com o que só podíamos apreciar pela TV. Aquele famoso “é outro esporte” que dizíamos após sermos brindados por um bom espetáculo de futebol no Novo Mundo. Nada tão especial. “Apenas” repensaram a ojeriza pela bola. Intensidade na marcação em todos os espaços do campo e deslocamentos para facilitar passes. O ótimo time começou a vencer, vencer e vencer. Com isso, a tão importante confiança fez o restante. Como naqueles “alinhamentos de planetas” a coisa entre em círculo virtuoso. Foi um massacre. Em apenas alguns meses, título brasileiro com inéditos 90 pontos, incontáveis goleadas sobre os rivais e o título continental. Nada mal. Além dos aspectos objetivos (títulos), a forma alegre de jogar, sem dúvida, colabora demais para a conquista de mais torcedores mirins, pedra fundamental da grandeza de qualquer time.

Enfim, foi um tsunami. As ondas cariocas dizimaram 2 técnicos, um diretor de futebol, diversos jogadores e, talvez, tenha sido o começo da desintoxicação da coletividade em relação ao futebol primitivo. Pela primeira vez, li nas redes “antissociais” sobre a necessidade de jogar um bom futebol. Não necessariamente bonito, algo subjetivo, mas um bom futebol.

Como o Palmeiras responderá ao novo momento?

Infelizmente, não sei ao certo. Penso que as condições nunca estiveram tão favoráveis ao resgate da nossa história, da nossa identidade. Penso também que, se escolhermos mudar, como todo processo de desintoxicação, esse terá hesitação, tentação, recaídas, etc. Convicção, se houver, será posta à prova quase que diariamente.

Não é impossível que esse Flamengo reduza de ímpeto (dentro de campo), que seu técnico saia, que uma derrota no mata-mata para um técnico “reativo” mude o ambiente novamente. Penso que isso não deveria interessar.

Quem comanda um clube deveria sempre se inspirar no que nos trouxe até aqui. Nossa história de 105 anos teve dores, quedas, derrotas, mas, nunca falta de altivez. Nunca covardia. Não foi “jogando por uma bola” que seguramos no braço os canalhas que queriam tomar nosso estádio em 1942. Não foi com “bola parada” que os italianos que sofriam todo o tipo de preconceito fundaram a Società Sportiva Palestra Italia. Não foi com “casquinha” para centroavante que conquistamos o Mundo em 1951. Não foi com “chutão” que a Academia representou o Brasil em 1965.

A gente não quer só comida!

Marcelo, o Racional

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Estimativas de Pontuação para o Campeão Brasileiro

Caros amigos,

Como não atender a um pedido de nosso amigo Prisco, vulgo Baggio, que gentilmente abre espaço para nossos “posts”? No fim do ano passado ele pediu que fizessemos uma abordagem referente às estimativas de pontuação para o Campeão Brasileiro. Isso foi motivado por alguns “palpites” nos 2 últimos títulos conquistados pelo Palmeiras. Em 2016, “cravei” os 72 pontos e em 2018 “cravei” os 74 pontos. Essas pontuações seriam suficientes, no limite, para superar os respectivos vices (Santos – 71 e Flamengo – 72). Coincidentemente, nos 2 anos, o Palmeiras chegou a 80 pontos, bem acima do necessário.

Evidentemente, diversos fatores influenciam esses números num campeonato apenas. O equilíbrio da disputa, o momento do jogo decisivo entre os primeiros colocados, a antecedência na qual o campeonato é decidido (que desmotivaria o segundo lugar), se ainda há algo em disputa pelo segundo colocado (vaga na Libertadores ou premiação que faça sentido para um time em maior dificuldade financeira), etc. Porém, quando usamos séries mais longas, esses efeitos são atenuados e o Brasileirão por 20 clubes já está na sua 13ª edição, sendo esta, uma boa amostragem para algumas conclusões.

Seria fácil se as condições de contorno fosse mantidas. Entretanto, o “post” anterior argumentava sobre a “nova ordem” dos clubes brasileiros, com a queda de relevância de alguns dos outrora 12 gigantes. O efeito imediato é a redução do equilíbrio do campeonato. Tentaremos demonstrar que esse processo já começou com uma poderosa aliada, a matemática.

Nas imagens abaixo, será possível verificar a pontuação média de cada posição, a mediana, o mínimo, o máximo, o desvio padrão e a soma entre o desvio padrão e mediana.

Observem a foto abaixo





O campeão faz, na média, 75,8 pontos; o segundo 68,3; o terceiro 66,6 e o quarto 63,4. Porém, se fizermos uma análise apenas dos últimos 5 anos (2014-2018), os números já se alteram de forma substancial para cima.





Observem que as respectivas pontuações vão para 78,6 (diferença de 2,8 pontos) ; 69,0 (0,7); 68 (1,4) e 64,2 (0,8). A mesma lógica é vista na parte de baixo da tabela com os times fazendo menos pontos. O 16º colocado faz na média, 43,7 pontos e nos últimos 5 anos 42,8 (0,9).

Para “comprovar” a tese, nessa última foto abaixo, o extrato dos primeiros 5 anos dos pontos corridos (2006-2010).




Comparando os últimos 5 anos com os primeiros 5 anos, a diferença é ainda mais gritante. Na primeira posição a variação foi de relevantes 5 pontos (78,6 x 73,6). Vale observar a diferença nas outras posições e na parte debaixo da tabela.

A conclusão é que o menor equilíbrio está “alargando” a tabela e essa tendência está longe do fim.

Sendo assim, meu caro Baggio, uma má notícia...os 74 pontos ainda poderão servir no curtíssimo prazo, mas, certamente não servirão nos próximos 3 a 5 anos. Sugiro colocar alguma gordura antes de apreciar seus fantásticos vinhos ao final dos campeonatos brasileiros...

Marcelo, o Racional