domingo, 29 de março de 2026

O biênio 2024–2025

          Caros amigos,


Depois de longa ausência, um “post” bianual — e entendo que há um fio condutor entre os acontecimentos dos últimos dois anos.

Para começar, penso que não dá para falar nada sem antes compreender dois aspectos extremamente relevantes e, até certo ponto, relacionados.

O primeiro é o fatídico 24 de novembro de 2024 (perda do Brasileiro em casa para o Botafogo). Essa data marcou a primeira vez que a TIP (Torcida Insuportável do Palmeiras), de fato, conseguiu invadir a “fortaleza” que permitia à diretoria “dar de ombros” à gritaria. Como consequência, deu carne aos leões e promoveu a maior reformulação da história de um time vencedor que conheci. Quase duas dezenas de jogadores foram dispensados em curtíssimo espaço de tempo (ah, que falta fez um Zé Rafael em Lima, um Mayke… e, se quisermos ir mais atrás… que saudade absurda do Luan). Que fique claro: não sou contra a oxigenação do elenco, mas tenho ressalvas quanto à intensidade. Adicionalmente, infiro que também se quebrou algo que gerava segurança no vestiário, ou seja, por mais que houvesse apupos do torcedor no estádio ou nas redes “antissociais”, a mensagem era: fique tranquilo, jogador, faça o que a comissão lhe pede e tudo bem. Hoje, eles sabem que não é bem assim…

O segundo aspecto é que o Palmeiras não tem opção. Trata-se de estrada única. Para competir com um time que fatura 40% a mais que você, a única chance é investir em jovens que valorizem no futuro e façam a roda girar (junto com a base). O Flamengo faz as duas coisas, ou seja, traz o jovem e o experiente. Nessa final da Libertadores, por exemplo, Jorginho jogou e Saúl ficou no banco para o jovem Pulgar atuar. Não é pequena a diferença de poder “errar” em contratações sem se preocupar financeiramente.

Na história do futebol, é muito improvável que uma reformulação desse porte gere títulos logo no primeiro ano, ainda mais com jovens. A manutenção do time por um período prolongado é fundamental para que os jogadores amadureçam e deem frutos (talvez o maior símbolo seja o Veiga entre 2017 e 2021). E esse cenário, espero estar certo, tem uma boa chance de ocorrer.

Deixando claro o contexto acima, vamos para o ano e para o jogo do ano. O Palmeiras e, em certa medida, o Abel, são uma espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o tal do médico e o monstro. Da mesma forma que a consistência do Palmeiras, as viradas improváveis e o fato de conseguir disputar títulos no primeiro ano de reformulação impressionam positivamente, a tacanha “estratégia” de despejar bola aérea na área e a demora em encontrar soluções dentro do elenco decepcionam muito. São aspectos incompatíveis com o status de Abel e, queiram ou não, com a segunda maior folha salarial do país. Apenas a contusão do nosso Saúl tupiniquim (Evangelista) não deveria explicar essa queda vertiginosa nos últimos jogos da temporada.

Quanto ao jogo no Peru, tentamos a estratégia de 2020: cozinhar a partida até achar um gol. Mesmo com muito menos efetividade do que há cinco anos, se não déssemos um escanteio de graça e o jovem Vitor Roque não perdesse sua chance, vai que… E, se desse certo, estaríamos dizendo que o Abel tinha um plano…

Mas é pouco, muito pouco. O Palmeiras, dentro de campo, fez uma partida muito abaixo até mesmo da sua tradição na competição. O Racing e o Estudiantes, com condições muito piores, foram muito mais efetivos em suas estratégias do que o Palmeiras, congelado num sistema de três zagueiros sem saída, condenando o meio-campo à inanição. Por se tratar de uma final de Libertadores contra o principal rival atual, trata-se de uma página para lá de decepcionante da nossa história pós-reconstrução.

Para não deixar de citar a arbitragem, sou um dos poucos que não expulsaria o Pulgar. Jogo parado, Fuchs deu um totó na bola antes. Para o meu “gosto”, pênalti e expulsão só em último caso, e o futebol brasileiro se acostumou a enxergar o jogo pelo VAR, pelos replays em câmera lenta e pelas marcas de chuteira. Sei que muitos expulsariam, mas não é o que penso. Sei também da total falta de critério, dependendo do árbitro e do campeonato. De qualquer forma, longe de dizer que o resultado do jogo não mudaria, lembro que sofremos um gol de bola parada por erro individual na decisão de deixar a bola sair. A atuação patética foi a maior causa da derrota.

Quanto ao futuro próximo, o ideal é manter o planejamento, com os ajustes anuais naturais (já sabemos que contaremos com os reforços de Evangelista e Paulinho), com duas mudanças comportamentais importantes — uma impossível e outra bastante improvável.

Leila precisa ser menos egocêntrica e parar com a conversa de terceiro mandato, além de restabelecer padrões mínimos de convivência com as organizadas para que todos remem para o mesmo lado. Padrões mínimos não são sinônimos de doação de ingressos, permitir invasões ou dar voz irrestrita aos pleitos. São padrões mínimos mesmo. O Palmeiras quase sempre se coloca ao lado oposto do torcedor (o comum, inclusive). São vários os exemplos, mas o texto ficaria ainda mais longo. Desconexão entre torcida e clube é tão nociva quanto o excesso (vide Parque São Jorge).

E Abel precisa se expressar muito melhor em coletivas, em todos os aspectos, além de gerar alternativas quando a coisa não vai bem. Jogar mal, atravessar má fase e sofrer com contusões todo mundo está sujeito. Pobreza de repertório, não — ainda mais pelo tempo de clube e pela remuneração.

Falando de futuro a médio prazo, não sei o nível de clareza do desafio que nos espera por parte de toda a coletividade. O Flamengo é um colosso. Era difícil e caro ir a Lima, mas para eles foi menos. De novo, eram maioria. Maioria no estádio, nas ruas e até nos aviões em São Paulo. Na prática, a pergunta é: como competir com essa força econômica inédita em mais de 100 anos de história? A resposta talvez passe por dois pontos.

O primeiro é a excelência em todos os pontos de atuação da instituição. Minha visão pessoal é que temos isso na maioria dos temas e, por isso, ainda estamos dividindo títulos.

O segundo é a capacidade de inovação e criatividade para buscar novas receitas acima da média. Aqui não vamos bem. Porém, mesmo que passemos a tê-las algum dia, o rival pode copiá-las logo depois. Ou seja, inovação e criatividade precisam ser contínuas.

Tentando resumir bastante, não há como aumentar as receitas recorrentes do Palmeiras sem um incremento substancial de sua torcida nas próximas décadas. Dificilmente a base pode entregar mais do que já entrega. É improvável que as comissões técnicas do futuro sejam substancialmente melhores do que a atual. O estádio dificilmente dará ainda mais receita do que já dá. A chave está em ampliar o “mercado consumidor”.

Entendo que, por nossos méritos, abriu-se uma janela que não pode ser desperdiçada. Viramos o anti-Flamengo. O Flamengo nos vê, claramente, como seu maior rival. E isso é excelente. Como no judô, devemos usar a força do oponente a nosso favor. Temos uma oportunidade de ouro de promover a maior expansão nacional de torcedores, justamente por sermos o antagonista do time mais popular. Quem melhor ocupou esse espaço fora do eixo Rio–São Paulo no passado foi o Vasco, mas, por motivos óbvios, ele vem perdendo força ano a ano. Dito de outra forma, um torcedor de Petrolina, que gosta de futebol e não quer “pertencer” ao time mais popular do Brasil, precisa ter o Palmeiras como opção acessível e disponível.

Minha visão é que a expansão da torcida do Palmeiras não está na cidade de São Paulo, convencendo filhos de corintianos a torcer pelo alviverde. Está nesse mar de gente jovem que já nasceu nesse futebol mais nacionalizado, clamando por um time relevante para torcer. Não caiamos na conversa de que torcedor de fora do Estado é “terceirizado”. Não é. Eles apenas não frequentam o estádio com regularidade. Como disse anteriormente, em São Paulo, no dia da final da Libertadores, havia inúmeros rubro-negros de outros Estados absolutamente envolvidos com o clube, cantando as músicas, pertencendo àquela comunidade. Viajei ao lado de um torcedor fanático de Mossoró-RN. E, mesmo numa visão mais ampla e pragmática, esses torcedores consomem PPV, camisas, mídias dos clubes, sócio-torcedor etc.

Para aproveitar essa oportunidade, é fundamental um trabalho profissional de marketing nas principais praças fora de São Paulo, com tudo o que se possa imaginar: presença de ex-jogadores, lojas-conceito, espaços que “vendam” o Palmeiras, visitas a escolas, entre outras ações. Aliás, fica aqui um pedido pessoal à diretoria: não é aceitável que a única loja de futebol do aeroporto mais movimentado do país — o maior hub internacional, com presença de inúmeros estrangeiros — seja do Flamengo. Sim, na cidade de São Paulo (GRU) não há uma loja de time paulista. Se um francês desembarcar em São Paulo e quiser levar uma camisa de presente para o filho, só terá uma opção…

Termino com dois parágrafos menos entusiasmados. Nossa distância para o terceiro e o quarto clubes do país está aumentando, mas a do primeiro também. Mais do que uma “espanholização”, vejo um risco real de “alemanhização” do nosso futebol. O Flamengo aumentou sua receita, mas ainda tinha uma gestão esportiva à moda antiga, exemplificada por Gabigol fazendo o que queria e mandando cinco treinadores embora. Este foi o primeiro ano de gestão esportiva aliada à gestão econômica. E o resultado? Até o dia 21 de dezembro, o Flamengo será o atual campeão da Libertadores, do Brasileiro, da Copa do Brasil, da Supercopa, do Carioca e da Taça Guanabara, gabaritando todos os títulos possíveis, exceto o Mundial de Clubes.

Talvez estejamos começando uma nova fase em que não seremos mais capazes de “dividir” os títulos, mas de ganhar alguns. Talvez isso não fique latente em 2026 ou 2027, mas, até o final da década, me parece inexorável — a não ser que haja uma nova reconstrução alviverde ou uma mudança estrutural do futebol brasileiro, algo bastante improvável. A estrada está bifurcando… Seremos o Barcelona ou o Borussia? E, se está “ruim” para nós, imagine para o resto. De qualquer forma, o Palmeiras 2.0 (conforme post anterior) precisa começar agora — e já estamos atrasados.

Marcelo, o Racional

2023 – As Respostas

          Caros amigos,

No tradicional “post” do final do ano passado, fazia a pergunta sobre a consolidação de um ciclo ou de um método. Transcrevo parte daquele texto:

“Afinal, estamos assistindo à consolidação de um método ou de um ciclo? Sendo mais claro… estamos convencidos de que esse é o modelo e iremos replicá-lo pelos próximos anos ou, nas derrotas e decepções (desculpem-me alertar, elas virão), voltaremos ao caminho antigo?

Sinceramente, não tenho a resposta. A rigor, só saberemos quando formos submetidos a essa (desagradável) situação. Os sinais são confusos. Por um lado, os títulos deveriam dar a convicção do nosso caminho. Por outro, nas (raras) derrotas e nas (inúmeras) contratações de outros times, sempre enxergamos manifestações de inveja e desconforto.

A direção será forte o bastante? Tomara que sim! 

Nossa força deveria estar mais no método e nos processos (clube, direção, finanças, marketing, estrutura) do que ‘na’ pessoa (Paulo Nobre, Leila Pereira e, de maneira mais emblemática atualmente, Abel Ferreira). 

Por mais paradoxal que possa parecer, o maior e melhor remédio para a inevitável (só não sabemos quando) abstinência de Abel Ferreira será a convicção no nosso modelo. Abandoná-lo pode nos custar anos e anos, como vimos nas décadas perdidas desde 1980. 

San Gennaro vem nos mostrando o caminho. Que ele nos dê sabedoria para que a coletividade resista às tentações e continue trilhando o caminho do protagonismo.” 

Bem, 2023 nos deu parte da resposta. 

Do ponto de vista da coletividade, está muito claro: esse modelo não tem aprovação e, talvez o advérbio seja pesado demais, jamais terá. Mesmo com os inúmeros troféus e as diversas manifestações que nos deixaram orgulhosos do time para o qual torcemos — para citar apenas um exemplo recente, a virada heroica contra o Botafogo —, a pressão pela troca do modelo é constante e pesada. O “ô, ô, ô, queremos jogador…” é mais dissimulado, mas continua tão forte quanto sempre foi. 

Naturalmente, esse clamor não vem de uma análise paciente e ponderada dos fatos, mas de um costume antigo — de quando o jogo era menos coletivo e resolvido por “craques” — alimentado por um modelo de comunicação (imprensa e redes “antissociais”) que exige contundência e polêmica. Peço paciência aos raros leitores, já que esse tema é tratado por este “blogueiro” há décadas (inclusive neste espaço), e vamos insistir novamente… 

Para começar, esse modelo palestrino só pôde ser colocado em prática neste século. O esporte sofreu uma transformação absurda nos últimos 15 a 20 anos, talvez a maior que o futebol secular já experimentou. O jogo, antes mais individual e de improviso, tornou-se essencialmente coletivo e estudado. Cabe ressaltar que não se trata de uma opinião pessoal, mas de uma constatação. É interessante notar como essa mudança tem correlação direta com a perda de relevância da seleção brasileira desde então. Quando o jogo era individual e improvisado, os craques brasileiros resolviam. Se a coisa ia mal, bastava chamar Romário em 1993. E ele resolvia mesmo. 

Hoje, o jogo é essencialmente coletivo: deslocamentos sem a bola, passes rasteiros precisos no pé correto do companheiro, excelência física para cumprir papéis previamente determinados, consistência mental para suportar o “pique da remada” por toda a temporada (ou várias temporadas), gestão de grupo para um calendário cada vez mais desafiador e técnicos que conheçam o jogo — e não apenas aspectos motivacionais ou intuitivos (menos Joel Santana e mais Abel Ferreira). Esses são alguns exemplos dessa nova dinâmica. 

Como o futebol brasileiro nasceu, cresceu e se tornou relevante na dinâmica antiga — da saudosa e inevitável memória afetiva que nos remete à forma como nos apaixonamos pelo futebol —, há uma verdadeira “bola de ferro” que impede a coletividade do futebol brasileiro de reconhecer essas mudanças. Seja a imprensa, seja a torcida, seja a classe dirigente (amadora), todos ainda carregam no imaginário a ideia de que a solução para uma derrota é a chegada de um “grande” jogador. Aquele que fez um lance bonito no passado, um golaço, e que supostamente resolverá todos os problemas. Nada mais ilusório. Evidentemente, não se está dizendo que o craque não tem mais espaço ou que jogadores limitados ganham jogos sozinhos. Apenas que a qualidade técnica isolada não é mais suficiente. 

Por óbvio, é importante reconhecer que modelo algum garante vitórias e títulos. Trata-se de um jogo — e nem todas as situações podem ser previstas ou controladas. A grande entrega de um modelo é a perenidade do protagonismo institucional. Tendo isso claro, vamos tentar resumir o modelo do Palmeiras desde 2020. Vale lembrar que ele foi iniciado não por convicção, mas por necessidade, após o “all in” financeiro de 2019 e o atropelo do rival carioca naquele mesmo ano. 

O modelo escolhido pelo Palmeiras consiste, resumidamente, em: fortalecimento da base, elenco menos numeroso, reconhecimento de quem se comprova tecnicamente bom e fortemente comprometido, jogadores de idade média mais baixa, tudo sustentado por uma estrutura de primeira linha para padrões nacionais. Cada escolha traz vantagens e desvantagens. Curiosamente, quem critica o modelo palmeirense costuma ignorar as desvantagens dos modelos adotados pelos rivais.  

1 – Fortalecimento da base 

A base do Palmeiras deixou de ser uma vergonha ou uma nulidade. Após uma década de trabalho sério, tornou-se a melhor do Brasil. Vários jogadores demonstraram capacidade de integrar o elenco principal e, em alguns casos, serem protagonistas. Na partida contra o River Plate, na Argentina, pela Libertadores de 2020, foi impressionante como os “três porquinhos” do meio-campo (Patrick de Paula, Danilo e Gabriel Menino) controlaram o jogo. Veron e Wesley tiveram participações relevantes em títulos. Naves, mais recentemente, deu conta do recado. Sem falar em Endrick, a exceção da exceção. A escolha entre esses jogadores e contratações externas deixou de ser óbvia. A base gera dúvidas legítimas sobre a real necessidade de contratar. Curiosamente, os casos que deram errado foram muito mais por questões comportamentais do que técnicas — e quem falha nesse quesito costuma ser afastado rapidamente. 

2 – Elenco menos numeroso 

Manter um grupo coeso, sem vaidades contaminando o ambiente, é particularmente difícil no futebol brasileiro. Um elenco menos numeroso e sem grandes “tubarões” no banco facilita esse objetivo. Todos, cedo ou tarde, têm oportunidade. O entendimento do técnico sobre competências técnicas e comportamentais torna-se mais claro, e o empenho aumenta. Tentamos o modelo oposto há pouco tempo, com resultado pior e mais caro. Tínhamos Veiga, Scarpa, Lucas Lima e Ricardo Goulart disputando a mesma faixa do campo, numa ciranda improdutiva. No Flamengo de 2023, Pedro foi agredido pelo preparador físico, Vidal jogou a caneleira no banco, Gérson agrediu Varela. Elenco grande não garante sucesso. 

3 – Reconhecimento de quem se comprova bom e comprometido 

Nesse modelo, jogadores merecedores são rapidamente reconhecidos. Passa despercebido, mas o Palmeiras renovou recentemente com Zé Rafael e Murilo. Essas renovações consideram não apenas técnica, mas comprometimento. O índice de acertos é impressionante. As vantagens incluem menor risco, memória de jogo, alicerce de experiência e maior paciência da torcida. Por outro lado, o custo do elenco sobe, exigindo atenção para evitar acomodação. O Flamengo é um bom contraponto: renovou contratos levando em conta quase exclusivamente aspectos técnicos e colheu acomodação. 

4 – Jogadores de idade média mais baixa 

Goste-se ou não, o esporte tornou-se muito mais físico. O calendário é insano. Jogadores mais jovens suportam melhor a intensidade e reduzem riscos de contusão. As contratações “de aeroporto” geralmente envolvem atletas mais velhos, pouco compatíveis com o modelo escolhido. O Corinthians é um exemplo do modelo oposto. O Fluminense adotou um modelo híbrido (base + veteranos), eficaz em mata-matas, mas com dificuldades em torneios longos. 

Enfim, a pergunta central é: 

O modelo vigente garante protagonismo perene? 

Para este “blogueiro”, a resposta é sim. Um sonoro SIM. 

Mesmo para os mais céticos, que só consideram troféus, trata-se do período mais vitorioso dos 110 anos da instituição. Isso sem contar os momentos épicos, os jogos inesquecíveis que farão parte da memória coletiva de filhos e netos. 

Curioso observar também o silêncio conveniente quando modelos antagônicos fracassam — seja nos rivais, seja no próprio Palmeiras em apostas recentes em Borjas, Lucas Limas e Ricardo Goularts. Quando o fracasso acontece, a culpa recai sempre no técnico. O famoso “tem que mandar embora”, como se contratos não existissem ou como se outros clubes estivessem ansiosos para absorver essas “bombas”. 

É difícil compreender a paixão por pedir jogador a cada decepção. A conclusão, portanto, é dura: mesmo entregando protagonismo e títulos, esse modelo jamais terá aprovação majoritária da coletividade. Antes, os defensores eram praticamente inexistentes; hoje são poucos. Achar que se tornarão maioria é devaneio. 

Por fim, é fundamental reforçar: apoiar o modelo de gestão do futebol não é apoiar irrestritamente a gestão da presidente. Há aspectos criticáveis — imagem institucional, conflitos de interesse evidentes, timidez em inovação de receitas e enfraquecimento da oposição. Reconhecer acertos no futebol não concede salvo-conduto para erros em outras áreas. 

Quanto à direção, a resposta ainda é inconclusiva. Houve resistência à pressão, mas ainda não se viveu um período prolongado sem conquistas. Confesso que esperava maior suscetibilidade à pressão, mas, por convicção ou gosto pelo confronto, o modelo foi mantido neste primeiro mandato. 

Concluindo este longo “post”, nada indica, infelizmente, a consolidação definitiva de um método. Resta torcer para que esse ciclo seja eterno enquanto dure.

Um feliz 2024 para todos os palestrinos. 

Marcelo, o Racional