Caros amigos,
No tradicional “post” do final do ano passado, fazia a pergunta sobre a consolidação de um ciclo ou de um método. Transcrevo parte daquele texto:
“Afinal, estamos assistindo à consolidação de um método ou de um ciclo? Sendo mais claro… estamos convencidos de que esse é o modelo e iremos replicá-lo pelos próximos anos ou, nas derrotas e decepções (desculpem-me alertar, elas virão), voltaremos ao caminho antigo?
Sinceramente, não tenho a resposta. A rigor, só saberemos quando formos submetidos a essa (desagradável) situação. Os sinais são confusos. Por um lado, os títulos deveriam dar a convicção do nosso caminho. Por outro, nas (raras) derrotas e nas (inúmeras) contratações de outros times, sempre enxergamos manifestações de inveja e desconforto.
A direção será forte o bastante? Tomara que sim!
Nossa força deveria estar mais no método e nos processos (clube, direção, finanças, marketing, estrutura) do que ‘na’ pessoa (Paulo Nobre, Leila Pereira e, de maneira mais emblemática atualmente, Abel Ferreira).
Por mais paradoxal que possa parecer, o maior e melhor remédio para a inevitável (só não sabemos quando) abstinência de Abel Ferreira será a convicção no nosso modelo. Abandoná-lo pode nos custar anos e anos, como vimos nas décadas perdidas desde 1980.
San Gennaro vem nos mostrando o caminho. Que ele nos dê sabedoria para que a coletividade resista às tentações e continue trilhando o caminho do protagonismo.”
Bem, 2023 nos deu parte da resposta.
Do ponto de vista da coletividade, está muito claro: esse modelo não tem aprovação e, talvez o advérbio seja pesado demais, jamais terá. Mesmo com os inúmeros troféus e as diversas manifestações que nos deixaram orgulhosos do time para o qual torcemos — para citar apenas um exemplo recente, a virada heroica contra o Botafogo —, a pressão pela troca do modelo é constante e pesada. O “ô, ô, ô, queremos jogador…” é mais dissimulado, mas continua tão forte quanto sempre foi.
Naturalmente, esse clamor não vem de uma análise paciente e ponderada dos fatos, mas de um costume antigo — de quando o jogo era menos coletivo e resolvido por “craques” — alimentado por um modelo de comunicação (imprensa e redes “antissociais”) que exige contundência e polêmica. Peço paciência aos raros leitores, já que esse tema é tratado por este “blogueiro” há décadas (inclusive neste espaço), e vamos insistir novamente…
Para começar, esse modelo palestrino só pôde ser colocado em prática neste século. O esporte sofreu uma transformação absurda nos últimos 15 a 20 anos, talvez a maior que o futebol secular já experimentou. O jogo, antes mais individual e de improviso, tornou-se essencialmente coletivo e estudado. Cabe ressaltar que não se trata de uma opinião pessoal, mas de uma constatação. É interessante notar como essa mudança tem correlação direta com a perda de relevância da seleção brasileira desde então. Quando o jogo era individual e improvisado, os craques brasileiros resolviam. Se a coisa ia mal, bastava chamar Romário em 1993. E ele resolvia mesmo.
Hoje, o jogo é essencialmente coletivo: deslocamentos sem a bola, passes rasteiros precisos no pé correto do companheiro, excelência física para cumprir papéis previamente determinados, consistência mental para suportar o “pique da remada” por toda a temporada (ou várias temporadas), gestão de grupo para um calendário cada vez mais desafiador e técnicos que conheçam o jogo — e não apenas aspectos motivacionais ou intuitivos (menos Joel Santana e mais Abel Ferreira). Esses são alguns exemplos dessa nova dinâmica.
Como o futebol brasileiro nasceu, cresceu e se tornou relevante na dinâmica antiga — da saudosa e inevitável memória afetiva que nos remete à forma como nos apaixonamos pelo futebol —, há uma verdadeira “bola de ferro” que impede a coletividade do futebol brasileiro de reconhecer essas mudanças. Seja a imprensa, seja a torcida, seja a classe dirigente (amadora), todos ainda carregam no imaginário a ideia de que a solução para uma derrota é a chegada de um “grande” jogador. Aquele que fez um lance bonito no passado, um golaço, e que supostamente resolverá todos os problemas. Nada mais ilusório. Evidentemente, não se está dizendo que o craque não tem mais espaço ou que jogadores limitados ganham jogos sozinhos. Apenas que a qualidade técnica isolada não é mais suficiente.
Por óbvio, é importante reconhecer que modelo algum garante vitórias e títulos. Trata-se de um jogo — e nem todas as situações podem ser previstas ou controladas. A grande entrega de um modelo é a perenidade do protagonismo institucional. Tendo isso claro, vamos tentar resumir o modelo do Palmeiras desde 2020. Vale lembrar que ele foi iniciado não por convicção, mas por necessidade, após o “all in” financeiro de 2019 e o atropelo do rival carioca naquele mesmo ano.
O modelo escolhido pelo Palmeiras consiste, resumidamente, em: fortalecimento da base, elenco menos numeroso, reconhecimento de quem se comprova tecnicamente bom e fortemente comprometido, jogadores de idade média mais baixa, tudo sustentado por uma estrutura de primeira linha para padrões nacionais. Cada escolha traz vantagens e desvantagens. Curiosamente, quem critica o modelo palmeirense costuma ignorar as desvantagens dos modelos adotados pelos rivais.
1 – Fortalecimento da base
A base do Palmeiras deixou de ser uma vergonha ou uma nulidade. Após uma década de trabalho sério, tornou-se a melhor do Brasil. Vários jogadores demonstraram capacidade de integrar o elenco principal e, em alguns casos, serem protagonistas. Na partida contra o River Plate, na Argentina, pela Libertadores de 2020, foi impressionante como os “três porquinhos” do meio-campo (Patrick de Paula, Danilo e Gabriel Menino) controlaram o jogo. Veron e Wesley tiveram participações relevantes em títulos. Naves, mais recentemente, deu conta do recado. Sem falar em Endrick, a exceção da exceção. A escolha entre esses jogadores e contratações externas deixou de ser óbvia. A base gera dúvidas legítimas sobre a real necessidade de contratar. Curiosamente, os casos que deram errado foram muito mais por questões comportamentais do que técnicas — e quem falha nesse quesito costuma ser afastado rapidamente.
2 – Elenco menos numeroso
Manter um grupo coeso, sem vaidades contaminando o ambiente, é particularmente difícil no futebol brasileiro. Um elenco menos numeroso e sem grandes “tubarões” no banco facilita esse objetivo. Todos, cedo ou tarde, têm oportunidade. O entendimento do técnico sobre competências técnicas e comportamentais torna-se mais claro, e o empenho aumenta. Tentamos o modelo oposto há pouco tempo, com resultado pior e mais caro. Tínhamos Veiga, Scarpa, Lucas Lima e Ricardo Goulart disputando a mesma faixa do campo, numa ciranda improdutiva. No Flamengo de 2023, Pedro foi agredido pelo preparador físico, Vidal jogou a caneleira no banco, Gérson agrediu Varela. Elenco grande não garante sucesso.
3 – Reconhecimento de quem se comprova bom e comprometido
Nesse modelo, jogadores merecedores são rapidamente reconhecidos. Passa despercebido, mas o Palmeiras renovou recentemente com Zé Rafael e Murilo. Essas renovações consideram não apenas técnica, mas comprometimento. O índice de acertos é impressionante. As vantagens incluem menor risco, memória de jogo, alicerce de experiência e maior paciência da torcida. Por outro lado, o custo do elenco sobe, exigindo atenção para evitar acomodação. O Flamengo é um bom contraponto: renovou contratos levando em conta quase exclusivamente aspectos técnicos e colheu acomodação.
4 – Jogadores de idade média mais baixa
Goste-se ou não, o esporte tornou-se muito mais físico. O calendário é insano. Jogadores mais jovens suportam melhor a intensidade e reduzem riscos de contusão. As contratações “de aeroporto” geralmente envolvem atletas mais velhos, pouco compatíveis com o modelo escolhido. O Corinthians é um exemplo do modelo oposto. O Fluminense adotou um modelo híbrido (base + veteranos), eficaz em mata-matas, mas com dificuldades em torneios longos.
Enfim, a pergunta central é:
O modelo vigente garante protagonismo perene?
Para este “blogueiro”, a resposta é sim. Um sonoro SIM.
Mesmo para os mais céticos, que só consideram troféus, trata-se do período mais vitorioso dos 110 anos da instituição. Isso sem contar os momentos épicos, os jogos inesquecíveis que farão parte da memória coletiva de filhos e netos.
Curioso observar também o silêncio conveniente quando modelos antagônicos fracassam — seja nos rivais, seja no próprio Palmeiras em apostas recentes em Borjas, Lucas Limas e Ricardo Goularts. Quando o fracasso acontece, a culpa recai sempre no técnico. O famoso “tem que mandar embora”, como se contratos não existissem ou como se outros clubes estivessem ansiosos para absorver essas “bombas”.
É difícil compreender a paixão por pedir jogador a cada decepção. A conclusão, portanto, é dura: mesmo entregando protagonismo e títulos, esse modelo jamais terá aprovação majoritária da coletividade. Antes, os defensores eram praticamente inexistentes; hoje são poucos. Achar que se tornarão maioria é devaneio.
Por fim, é fundamental reforçar: apoiar o modelo de gestão do futebol não é apoiar irrestritamente a gestão da presidente. Há aspectos criticáveis — imagem institucional, conflitos de interesse evidentes, timidez em inovação de receitas e enfraquecimento da oposição. Reconhecer acertos no futebol não concede salvo-conduto para erros em outras áreas.
Quanto à direção, a resposta ainda é inconclusiva. Houve resistência à pressão, mas ainda não se viveu um período prolongado sem conquistas. Confesso que esperava maior suscetibilidade à pressão, mas, por convicção ou gosto pelo confronto, o modelo foi mantido neste primeiro mandato.
Concluindo este longo “post”, nada indica, infelizmente, a consolidação definitiva de um método. Resta torcer para que esse ciclo seja eterno enquanto dure.
Um feliz 2024 para todos os palestrinos.
Marcelo, o Racional
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