Caros amigos,
Depois de longa ausência, um “post” bianual — e entendo que há um fio condutor entre os acontecimentos dos últimos dois anos.Para começar, penso que não dá para falar nada sem antes compreender dois aspectos extremamente relevantes e, até certo ponto, relacionados.O primeiro é o fatídico 24 de novembro de 2024 (perda do Brasileiro em casa para o Botafogo). Essa data marcou a primeira vez que a TIP (Torcida Insuportável do Palmeiras), de fato, conseguiu invadir a “fortaleza” que permitia à diretoria “dar de ombros” à gritaria. Como consequência, deu carne aos leões e promoveu a maior reformulação da história de um time vencedor que conheci. Quase duas dezenas de jogadores foram dispensados em curtíssimo espaço de tempo (ah, que falta fez um Zé Rafael em Lima, um Mayke… e, se quisermos ir mais atrás… que saudade absurda do Luan). Que fique claro: não sou contra a oxigenação do elenco, mas tenho ressalvas quanto à intensidade. Adicionalmente, infiro que também se quebrou algo que gerava segurança no vestiário, ou seja, por mais que houvesse apupos do torcedor no estádio ou nas redes “antissociais”, a mensagem era: fique tranquilo, jogador, faça o que a comissão lhe pede e tudo bem. Hoje, eles sabem que não é bem assim…O segundo aspecto é que o Palmeiras não tem opção. Trata-se de estrada única. Para competir com um time que fatura 40% a mais que você, a única chance é investir em jovens que valorizem no futuro e façam a roda girar (junto com a base). O Flamengo faz as duas coisas, ou seja, traz o jovem e o experiente. Nessa final da Libertadores, por exemplo, Jorginho jogou e Saúl ficou no banco para o jovem Pulgar atuar. Não é pequena a diferença de poder “errar” em contratações sem se preocupar financeiramente.Na história do futebol, é muito improvável que uma reformulação desse porte gere títulos logo no primeiro ano, ainda mais com jovens. A manutenção do time por um período prolongado é fundamental para que os jogadores amadureçam e deem frutos (talvez o maior símbolo seja o Veiga entre 2017 e 2021). E esse cenário, espero estar certo, tem uma boa chance de ocorrer.Deixando claro o contexto acima, vamos para o ano e para o jogo do ano. O Palmeiras e, em certa medida, o Abel, são uma espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o tal do médico e o monstro. Da mesma forma que a consistência do Palmeiras, as viradas improváveis e o fato de conseguir disputar títulos no primeiro ano de reformulação impressionam positivamente, a tacanha “estratégia” de despejar bola aérea na área e a demora em encontrar soluções dentro do elenco decepcionam muito. São aspectos incompatíveis com o status de Abel e, queiram ou não, com a segunda maior folha salarial do país. Apenas a contusão do nosso Saúl tupiniquim (Evangelista) não deveria explicar essa queda vertiginosa nos últimos jogos da temporada.Quanto ao jogo no Peru, tentamos a estratégia de 2020: cozinhar a partida até achar um gol. Mesmo com muito menos efetividade do que há cinco anos, se não déssemos um escanteio de graça e o jovem Vitor Roque não perdesse sua chance, vai que… E, se desse certo, estaríamos dizendo que o Abel tinha um plano…Mas é pouco, muito pouco. O Palmeiras, dentro de campo, fez uma partida muito abaixo até mesmo da sua tradição na competição. O Racing e o Estudiantes, com condições muito piores, foram muito mais efetivos em suas estratégias do que o Palmeiras, congelado num sistema de três zagueiros sem saída, condenando o meio-campo à inanição. Por se tratar de uma final de Libertadores contra o principal rival atual, trata-se de uma página para lá de decepcionante da nossa história pós-reconstrução.Para não deixar de citar a arbitragem, sou um dos poucos que não expulsaria o Pulgar. Jogo parado, Fuchs deu um totó na bola antes. Para o meu “gosto”, pênalti e expulsão só em último caso, e o futebol brasileiro se acostumou a enxergar o jogo pelo VAR, pelos replays em câmera lenta e pelas marcas de chuteira. Sei que muitos expulsariam, mas não é o que penso. Sei também da total falta de critério, dependendo do árbitro e do campeonato. De qualquer forma, longe de dizer que o resultado do jogo não mudaria, lembro que sofremos um gol de bola parada por erro individual na decisão de deixar a bola sair. A atuação patética foi a maior causa da derrota.Quanto ao futuro próximo, o ideal é manter o planejamento, com os ajustes anuais naturais (já sabemos que contaremos com os reforços de Evangelista e Paulinho), com duas mudanças comportamentais importantes — uma impossível e outra bastante improvável.Leila precisa ser menos egocêntrica e parar com a conversa de terceiro mandato, além de restabelecer padrões mínimos de convivência com as organizadas para que todos remem para o mesmo lado. Padrões mínimos não são sinônimos de doação de ingressos, permitir invasões ou dar voz irrestrita aos pleitos. São padrões mínimos mesmo. O Palmeiras quase sempre se coloca ao lado oposto do torcedor (o comum, inclusive). São vários os exemplos, mas o texto ficaria ainda mais longo. Desconexão entre torcida e clube é tão nociva quanto o excesso (vide Parque São Jorge).E Abel precisa se expressar muito melhor em coletivas, em todos os aspectos, além de gerar alternativas quando a coisa não vai bem. Jogar mal, atravessar má fase e sofrer com contusões todo mundo está sujeito. Pobreza de repertório, não — ainda mais pelo tempo de clube e pela remuneração.Falando de futuro a médio prazo, não sei o nível de clareza do desafio que nos espera por parte de toda a coletividade. O Flamengo é um colosso. Era difícil e caro ir a Lima, mas para eles foi menos. De novo, eram maioria. Maioria no estádio, nas ruas e até nos aviões em São Paulo. Na prática, a pergunta é: como competir com essa força econômica inédita em mais de 100 anos de história? A resposta talvez passe por dois pontos.O primeiro é a excelência em todos os pontos de atuação da instituição. Minha visão pessoal é que temos isso na maioria dos temas e, por isso, ainda estamos dividindo títulos.O segundo é a capacidade de inovação e criatividade para buscar novas receitas acima da média. Aqui não vamos bem. Porém, mesmo que passemos a tê-las algum dia, o rival pode copiá-las logo depois. Ou seja, inovação e criatividade precisam ser contínuas.Tentando resumir bastante, não há como aumentar as receitas recorrentes do Palmeiras sem um incremento substancial de sua torcida nas próximas décadas. Dificilmente a base pode entregar mais do que já entrega. É improvável que as comissões técnicas do futuro sejam substancialmente melhores do que a atual. O estádio dificilmente dará ainda mais receita do que já dá. A chave está em ampliar o “mercado consumidor”.Entendo que, por nossos méritos, abriu-se uma janela que não pode ser desperdiçada. Viramos o anti-Flamengo. O Flamengo nos vê, claramente, como seu maior rival. E isso é excelente. Como no judô, devemos usar a força do oponente a nosso favor. Temos uma oportunidade de ouro de promover a maior expansão nacional de torcedores, justamente por sermos o antagonista do time mais popular. Quem melhor ocupou esse espaço fora do eixo Rio–São Paulo no passado foi o Vasco, mas, por motivos óbvios, ele vem perdendo força ano a ano. Dito de outra forma, um torcedor de Petrolina, que gosta de futebol e não quer “pertencer” ao time mais popular do Brasil, precisa ter o Palmeiras como opção acessível e disponível.Minha visão é que a expansão da torcida do Palmeiras não está na cidade de São Paulo, convencendo filhos de corintianos a torcer pelo alviverde. Está nesse mar de gente jovem que já nasceu nesse futebol mais nacionalizado, clamando por um time relevante para torcer. Não caiamos na conversa de que torcedor de fora do Estado é “terceirizado”. Não é. Eles apenas não frequentam o estádio com regularidade. Como disse anteriormente, em São Paulo, no dia da final da Libertadores, havia inúmeros rubro-negros de outros Estados absolutamente envolvidos com o clube, cantando as músicas, pertencendo àquela comunidade. Viajei ao lado de um torcedor fanático de Mossoró-RN. E, mesmo numa visão mais ampla e pragmática, esses torcedores consomem PPV, camisas, mídias dos clubes, sócio-torcedor etc.Para aproveitar essa oportunidade, é fundamental um trabalho profissional de marketing nas principais praças fora de São Paulo, com tudo o que se possa imaginar: presença de ex-jogadores, lojas-conceito, espaços que “vendam” o Palmeiras, visitas a escolas, entre outras ações. Aliás, fica aqui um pedido pessoal à diretoria: não é aceitável que a única loja de futebol do aeroporto mais movimentado do país — o maior hub internacional, com presença de inúmeros estrangeiros — seja do Flamengo. Sim, na cidade de São Paulo (GRU) não há uma loja de time paulista. Se um francês desembarcar em São Paulo e quiser levar uma camisa de presente para o filho, só terá uma opção…Termino com dois parágrafos menos entusiasmados. Nossa distância para o terceiro e o quarto clubes do país está aumentando, mas a do primeiro também. Mais do que uma “espanholização”, vejo um risco real de “alemanhização” do nosso futebol. O Flamengo aumentou sua receita, mas ainda tinha uma gestão esportiva à moda antiga, exemplificada por Gabigol fazendo o que queria e mandando cinco treinadores embora. Este foi o primeiro ano de gestão esportiva aliada à gestão econômica. E o resultado? Até o dia 21 de dezembro, o Flamengo será o atual campeão da Libertadores, do Brasileiro, da Copa do Brasil, da Supercopa, do Carioca e da Taça Guanabara, gabaritando todos os títulos possíveis, exceto o Mundial de Clubes.Talvez estejamos começando uma nova fase em que não seremos mais capazes de “dividir” os títulos, mas de ganhar alguns. Talvez isso não fique latente em 2026 ou 2027, mas, até o final da década, me parece inexorável — a não ser que haja uma nova reconstrução alviverde ou uma mudança estrutural do futebol brasileiro, algo bastante improvável. A estrada está bifurcando… Seremos o Barcelona ou o Borussia? E, se está “ruim” para nós, imagine para o resto. De qualquer forma, o Palmeiras 2.0 (conforme post anterior) precisa começar agora — e já estamos atrasados.Marcelo, o Racional
Nenhum comentário:
Postar um comentário