quarta-feira, 17 de março de 2021

Balanço das Prioridades

          Caros amigos,

Em 2018, ainda sob os efeitos do histórico gol de Deyverson em São Januário, publiquei um “post” intitulado “A Necessidade da Evolução Contínua. A Falácia da Hegemonia no Brasil”. À época elenquei 10 tópicos que, na minha visão, deveriam merecer atenção da comunidade palestrina. Com o intuito de poupar o tempo do raro leitor, apenas citarei os tópicos e abordarei somente sobre as evoluções, ou não, dos mesmos abaixo. Caso haja interesse no maior esclarecimento da razão de cada item, peço acessar o “post” do ano retrasado e do ano passado. Em 2019, acrescentamos um décimo primeiro item (simpatia). Sendo assim, vamos a eles:
 
1 – Necessidade de mudanças estruturais
 
Sem evolução. Continuamos com a opção de compor com o sistema. Nosso treinador teceu críticas educadas, porém contundentes, acerca do calendário brasileiro há poucos dias. Todos sabem que ele tem razão e, por consequência, ele fala e a instituição cala. Já escrevi isso diversas vezes e repito. O Palmeiras não deveria liderar a mudança por benevolência, mas por pragmatismo. Seria o clube que mais se beneficiaria de uma estrutura mais profissional. Nunca tivemos ajuda estatal para construir estádio (aliás, como demorou o alvará para “reformarmos” com dinheiro privado), nem patrocínio público em camisa. Quem vocês acham que gostam mais do STJD, arbitragens polêmicas, calendário apertado, gramados ruins? O Palmeiras é que não é.
 
2 – Priorização do Brasileirão
 
Evoluímos. Mesmo fazendo todos os jogos da temporada, não desistimos do campeonato e jogamos à vera até o momento que perdemos as chances. Nesse aspecto, talvez a chegada de um europeu tenha ajudado já que eles, culturalmente, valorizam demais a liga nacional.
 
3 – O Palmeiras não tem Mundial
 
Apêndice do que foi escrito acima. A rigor, nem tempo para “priorizar” essa competição tivemos. Apesar da “pilha” dos rivais naquela semana de fevereiro, sem comentários adicionais.
 
4 – Modelo de jogo
 
Evoluímos. Diferentemente de 2019 onde havíamos ficado no mesmo lugar (bastante explorado no “post” “A gente não quer só comida...”), em 2020, tardiamente é verdade, buscamos um treinador que entregue um modelo de jogo mais antenado aos dias atuais. Cabe a ressalva que ainda não podemos afirmar que Abel será capaz de fazer isso (não por culpa dele, mas por falta de tempo de treinamento), porém, mesmo na insanidade do calendário, já percebemos a capacidade de gestão de pessoas e vestiário e de proporcionar soluções criativas em alguns jogos.
 
5 – Campeão, mas podemos melhorar
 
Evoluímos, conforme item anterior (modelo de jogo).
 
6- Novas mídias e TV
 
Estável, com tendência de involução, na opinião deste “blogueiro”. O mercado tradicional está em disrupção. Havia, basicamente, um “player” de transmissão. Feita a importante ressalva das toxicidades de um ambiente monopolístico, o modelo anterior “fechava” todas as quartas e domingos do ano inteiro. Jogos excelentes (finais de Libertadores) e jogos desinteressantes (fase de classificação de Estaduais) numa espécie de pacote anual, numa emissora com alta audiência e que atraía altas cotas de patrocínio. Nesse ambiente controlado, longe de ser perfeito, existiam alguns tetos que impediam que um clube ganhasse infinitamente mais que o outro (grifa-se o infinitamente). Com o apoio do Palmeiras, esse modelo acelerou sua implosão em 2020. O “novo” modelo pressupõe múltiplas plataformas e maior independência dos clubes na forma de rentabilizar a transmissão dos seus jogos. Tendo em vista que o processo está andando à revelia de alguns clubes, pressupõe-se que união deles é algo bastante inalcançável no médio prazo. Minha visão é que estão implodindo um modelo sem ter outro melhor estruturado no lugar. Esquecem da característica “consumidora”, pouco fiel dos torcedores brasileiros que, em geral, só apoiam “na boa”, da dificuldade em acompanhar e pagar em várias plataformas (Conmebol TV, PPV do Carioca, Premiere, PalmeirasTV – se for o caso) e que no modelo livre de negociação a diferença de remuneração entre os clubes aumentará ainda mais, algo que ferirá de morte a competitividade do futebol brasileiro. Para quem duvida, vale a leitura desse artigo de 2011 (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk1303201105.htm). Resumidamente, o Botafogo se empolgou com os R$ 20 milhões a mais que ganharia na negociação isolada com a TV em comparação com a anterior, feita em bloco com o Clube dos 13 que estava sendo implodido. Questionado que a diferença para o Flamengo iria triplicar, o presidente Maurício Assumpção hesitou e disse que, para ele, só importava o Botafogo. Em uma década, simplesmente não há mais competição entre Flamengo e Botafogo. Esse episódio ao menos, garantia um aumento absoluto na remuneração. A “aposta” desse “blogueiro” é que será muito improvável o aumento absoluto (pelas questões elencadas acima) e quase certo que haverá aumento na distância relativa entre os clubes. No limite, estamos apoiando o que vai nos prejudicar no futuro.
 
7 – Ocupação do Estádio
 
Face a pandemia, não cabe análise.
 
8 – Avanti
 
Face a pandemia, nesse ano, não cabe análise.
 
9 – Hegemonia
 
Esse aspecto aborda o risco da soberba que tanto atingiu outros clubes. Em 2020, não vimos traços dessa característica. Evoluímos.
 
10– Pacificação Política
 
Foi um ano mais pacífico, sem dúvida. Como não frequento o clube, corro o risco de ser bastante superficial, mas me parece um pouco a paz do cemitério. Apesar das mágoas e dissabores ainda estarem presente entre o atual e o ex-presidente, a oposição tem pouca densidade eleitoral. Na prática, tudo caminha para a eleição tranquila da candidata da situação.
 
11 – Simpatia
 
Mesmo sem a contratação de um profissional de “Relações Institucionais”, evoluímos sensivelmente, inclusive no aspecto relativo já que o rival carioca vem se perdendo nesse item. Se no ano passado abusamos de atitudes e notas geladas e desconexas do orgulho de ser palmeirense, nesse ano a mudança foi radical. A forma como conduzimos a crise na pandemia em relação aos pagamentos de salários, a empatia com os funcionários, tomando a decisão de não desligar ninguém nesse momento difícil, foi de encher de alegria o seu torcedor e lembrar do que faz um clube especial. Um clube vende sonhos, vende orgulho, vende uma forma de querer estar junto dos seus. E são esses momentos que fortalecem nossa essência. Evoluímos sensivelmente. 
 

 

Caros amigos,
 
Se em 2019, a gestão Galiotte mereceu críticas, nesse ano observamos mais acertos do que erros. Percebam que não abordei resultado, que são circunstanciais, mas aspectos importantes que deveriam estar na pauta de todo candidato que aspirar a presidência da Sociedade Esportiva Palmeiras. Os resultados também foram melhores, talvez pelo motivo de termos evoluído em alguns pontos acima, mas, paradoxalmente, não é o mais importante. O importante é o que estamos fazendo para continuarmos protagonistas.
 
E 2021?
 
Bem, vai depender do caminho escolhido (peço ler o “post” E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho...)
 
Primeiramente, falando de campo, avaliar se Abel conseguirá ampliar o repertório dessa equipe sem tempo para treinar. Esse é um desafio imposto a maioria dos clubes, mas como o Palmeiras está saindo de anos de futebol primitivo, nosso desafio pode ser um pouco maior.
 
Depois, interessante avaliar como serão as reposições das inevitáveis perdas de jogadores no meio do ano. Serão contratações como Viña ou como Ramires? Não só reposição, mas o próprio fortalecimento do elenco. Penso que temos posições carentes e, particularmente, acho o plantel muito baixo. Na minha visão, faz sentido aumentar a estatura média, especialmente no ataque. Aprendemos com 2020? Se sim, lembro que como efeito colateral positivo teremos menos pressão financeira e menos dependência de fontes de receita (como Crefisa e seu empréstimo, por exemplo). Se sim, cabe ressaltar que a escolha de analistas de desempenho (“olheiros” dos tempos modernos) e de uma comissão técnica permanente, hoje liderado por Andrey Lopes, o “Cebola”, são assuntos da mais alta importância nos dias atuais, tão (ou mais) importantes que a escolha de técnico e jogadores.
 
Outro ponto de enorme incerteza é a continuidade de um calendário insano. Além do implacável “quarta e domingo” até o final do ano (em avançando nas competições) nesse ano haverá um complicador adicional. Teremos a maior Copa América da história, com 8 jogos, ao invés dos tradicionais 6 jogos, e inéditos 10 jogos de Eliminatórias numa temporada. Adicionalmente, caso mantida, uma competição Olímpica Sub-23. O Palmeiras será ‘mutilado” por sucessivas convocações, inclusive de outros países da América do Sul.  
 
Temos uma boa janela pela frente. Os clubes foram dizimados financeiramente pela pandemia, o Palmeiras não foi diferente, mas boa parte das nossas perdas foram atenuadas pelas premiações da temporada 2020. No aspecto relativo, temos chance de nos distanciar ainda mais de alguns rivais e, com competência, brigar sem inferioridade (em campo) com o Flamengo e, talvez, Atlético-MG que deve incomodar no primeiro ano de “doping” financeiro.
 
Diferentemente do ano passado, tenho uma visão mais otimista do futuro. Não pelos títulos recentemente conquistados, mas por acreditar (eu sei, tem fé aqui...) que alguns aprendizados foram conquistados e não cometeremos os mesmos erros no futuro.
 
A observar! Seremos espectadores do dia a dia...capítulo vivo da história.
 
Marcelo, o Racional

terça-feira, 9 de março de 2021

E, mais uma vez, Jesus aponta o caminho...

Caros amigos,

Nessa temporada atípica, o “post” tradicional esperou a conclusão de todos os jogos, algo que só ocorreu no tardio 07 de março, data esta que marcou (mais) um título alviverde. Para iniciar, peço licença para algumas citações bíblicas.

Caminhos são passagens, veredas ou vias que servem para conduzir a um determinado fim ou lugar. Na Bíblia há diversas referências sobre caminhos. Ora descreve os caminhos certos, ora detecta os caminhos errados da vida; adverte-nos para o perigo do caminho dos pecadores e aponta para o caminho dos justos...

 

De modo geral, os caminhos na Bíblia podem ser entendidos de duas maneiras distintas: Caminhos divinos e Caminhos terrenos. Esses trajetos são opostos entre si e conduzem em direções contrárias. Seguem alguns contrapontos que encontramos nas Escrituras:

 

· Caminho direito X caminhos tortuosos (Isaías 26:7; 59:8)

· Caminhos de paz X caminhos de destruição (Lucas 1:79; Romanos 3:15-17) 

· Caminho estreito X caminho largo (Mateus 7:13-14)

· Caminhos de vida X caminhos de morte (Jeremias 21:8; Provérbios 15:24)

· Caminho da justiça X caminho dos injustos (Provérbios 12:28; Ezequiel 18:29)

· Caminhos eternos X caminhos maus (Salmos 139:24; 119:101)

 

Percebe-se, portanto, a infinidade de caminhos possíveis à humanidade. Ora, perguntaria o mais atento leitor, o que isso tem a ver com futebol??

Explico...Já com a devida vênia de citar o rival, nosso sucesso está intimamente ligado ao dia da final da Champions League (vencida pelo Liverpool) de 2019. Nessa data foi anunciada a chegada de Jorge Jesus ao nosso futebol. E, desde então, as placas tectônicas, que no futebol brasileiro insistem em não se mover, não só se moveram como chacoalharam a terra e o mar, num tsunami esportivo poucas vezes visto.

Tentando resumir cronologicamente os fatos, o Palmeiras é o Campeão Brasileiro de 2018. Além de aumentos salariais vultuosos aos principais jogadores, o Palmeiras optou por renovar o contrato de todos os jogadores do elenco e, não satisfeito, trouxe mais jogadores ao seu já grandioso plantel, desde jogadores caros como Carlos Eduardo a jogadores “inativos” como Ricardo Goulart. Obviamente, o título no ano anterior não motivou o clube a questionar o trabalho do técnico e o futebol pobre, para ser elegante, era aceito pela coletividade.

O curioso é que esse “all in” financeiro, aliado a contratações questionáveis e futebol sem brilho estavam dando certo. O Palmeiras joga a nona rodada do Brasileirão no dia 12/06, vence seu jogo contra o Avaí em casa e vai para o recesso da Copa América com 8 pontos de vantagem sobre seu maior rival atual. E, se está dando certo, por qual motivo não aumentar a dose? Dois dias depois, no dia 14/06, o Palmeiras anuncia mais um jogador “inativo”, Ramires, por 4 temporadas. No final de julho, repatria Vitor Hugo e alguns comunicadores “caça-cliques” já vaticinam o Palmeiras como Hendecacampeão Brasileiro.

Mas, Jesus voltou à Terra. Ao invés de multiplicar seus conhecimentos na Galileia, dessa vez, ele escolheu o Rio de Janeiro...

Sim, foi constrangedor...Além do rival fazer 24 pontos a mais em 29 jogos, sofremos duas derrotas acachapantes que ocasionaram a queda de 2 técnicos (Scolari e Mano). Mais que a perda do título, ficava nítida a incapacidade de competir no mesmo nível que o rival. Sem as receitas dos títulos dos campeonatos, com um elenco inchado e caro e um futebol paupérrimo, iniciávamos 2020 com a necessidade de mudanças.

Sempre haverá a legítima dúvida se foi por necessidade ou por convicção. Vale outro “post” para tratar desse ponto, mas o fato concreto é que a mudança foi implementada. Implementada de forma rápida e, até certo ponto, agressiva.

Se até 2019, a ideia era vender um Fernando (base) para o Shaktar e contratar um Carlos Eduardo, em 2020 o Palmeiras se desfez de cerca de 2 dezenas de jogadores. De Deyverson a Diogo Barbosa. De Borja a Guerra. De Vitor Hugo a Hyoran. De Fabiano a Erik. Até o maior expoente do título de 2018, Bruno Henrique, saiu. Até o maior jogador da década, Dudu, saiu.

Como “reposição”, contratações pontuais como Viña e Kuscevic e apenas uma contratação mais cara, Rony. Na opinião deste “blogueiro” um jogador comum, sem brilho técnico, mas, verdade seja dita, com participações decisivas na temporada. Mas, se perdemos 20 jogadores, como repor com apenas alguns? A resposta esteve na base. Evidentemente, isso só foi possível porque o Palmeiras - primeiramente com Paulo Nobre que iniciou a “descupinização” e primeiros investimentos e, posteriormente, com Galiotte que investiu cerca de R$ 100 milhões nos últimos anos - depois de décadas de negligência com o assunto, mudou sua postura e essa base, que já vinha demonstrando seu valor desde meados da década passada, supriu o elenco profissional com espantosos 12 jogadores, recorde na centenária história. Vale uma menção para lá de honrosa a João Paulo Sampaio, que assumiu a coordenação da base em 2015, função que cumpre até hoje. Personagem com pouca visibilidade, mas uma das figuras mais importantes da reconstrução palestrina. Nosso agradecimento eterno.

Com o desinvestimento de 40% na folha de pagamento, o Palmeiras deixava de figurar entre os favoritos nas principais competições pelos comunicadores esportivos e redes antissociais. Sendo franco, até o Anderson Barros, à época do recesso pandêmico, dizia que a reformulação indicava conquistas em 2021, mais provável, 2022, dada sua magnitude. O clássico plantar hoje para colher amanhã.

E qual foi o resultado da temporada? Pela primeira vez, desde o Santos em 1963, um time faz todos os jogos possíveis em uma temporada. Concluímos os 79 jogos. Mais que isso, ganhamos a maior obsessão, como a torcida - que canta e vibra - grita nos estádios. De quebra, vencemos mais uma Copa do Brasil, torneio de maior premiação no continente. De aperitivo, dois títulos sobre o maior rival local (Florida Cup e Paulista).

Isso quer dizer que está tudo certo?

Não, definitivamente, não. Sabemos que o Flamengo, apesar do título Brasileiro conquistado sem a tranquilidade que seu elenco sugere, tropeçou nas suas pernas em 2020 (aliás, uma espécie de Palmeiras 2019), sabemos que os cruzamentos dos torneios foram favoráveis enquanto encontrávamos o melhor jogo. Não podemos esquecer que a busca por um jogo mais antenado aos dias atuais só ocorreu em novembro, após a saída do inexplicável Vanderlei Luxemburgo. Pelo calendário insano, nem conseguimos enxergar se Abel Ferreira é um técnico com qualidades para deixar o jogo do Palmeiras mais versátil, mas é uma tentativa no caminho correto, sem dúvida. De qualquer forma, nesse ano, “apenas” com sua gestão de pessoas e de entorno acima da média de seus pares, o campo já deu alguma resposta.

Envelhecer traz poucas, mas importantes vantagens. Um clube centenário tem como observar os resultados quando trilhou um caminho ou o outro. Mais que isso, pode observar também o que aconteceu com os adversários quando escolheu um ou outro caminho.

Na Parmalat, tínhamos um Cafu ou um Rivaldo vindo de times grandes brasileiros (ainda jovens em início de carreira), mas tínhamos jogadores vindo do Guarani, União de Araras ou Rio Branco de Americana, como Djalminha, Luisão, Edilson, Roberto Carlos, Flavio Conceição, entre outros. Em 2016, saímos da fila de 22 anos sem Brasileiro com Moisés, Tchê Tchê, Vítor Hugo, Mina, Gabriel Jesus, Jaílson, Roger Guedes, entre outros. Em 2020, saímos da fila de 21 anos de Libertadores com garotos da base com participações fundamentais como Gabriel Menino, Wesley, Veron, Patrick de Paula, Danilo, etc.

Por outro lado, os 2 últimos “all in” fracassaram. Em 2009, com Belluzzo, angariamos uma segunda divisão 3 anos depois junto com uma improvável Copa do Brasil (à época sem os melhores times brasileiros que disputavam a Libertadores). A outra foi em 2019 (já citada acima) e que sofreu um atropelamento por parte do time carioca.

Em relação aos rivais, podemos citar o São Paulo, tricampeão brasileiro seguido por pontos corridos com Mineiro, Josué, Fabão, Aloísio, Alex Pirulito e o dos últimos 10 anos de fila com Rivaldo, Kaká, Adriano, Daniel Alves, Hernanes, Ganso e Pato.

Para não cansar os raros leitores que chegaram até aqui, não citarei mais exemplos, mas posso garantir que são inúmeros.

Claro, tudo é incerto. O futuro é incerto. No esporte, então, mais ainda. Mas, isso jamais poderia ser usado como desculpa para a aleatoriedade ou “terceirização” da gestão pelos clamores externos, sejam eles da torcida, da mídia, dos sócios ou de quem quer que sejam. Escrito de outra forma, temos que escolher as estradas que percorreremos. E eles são claros.

O caminho mais difícil, o da construção, o da paciência, com jogadores com “fome”, que olham o clube para cima, com a necessidade de extrema competência na hora de contratar, absurda competência no trabalho de base, o reconhecimento de seu tamanho na “cadeia alimentar” do futebol atual (menor que Europa e maior que América do Sul), a necessidade de oxigenar o elenco anualmente já que, até por aspectos culturais, os jogadores brasileiros se confortam com as primeiras conquistas especialmente se não conseguirem o “prêmio” de serem negociado para a Europa. Para coordenar tudo isso dentro de campo, um técnico minimamente conhecedor da forma como esse esporte é praticado atualmente.

O outro caminho é o atalho. Sempre mais simples, mais fácil. O aplauso impensado da torcida e da crítica no começo. O escudo para o dirigente. A tentativa que a grife, por algum motivo mais ligado à fé que aos fatos, supere os últimos maus trabalhos e finalmente vinguem no nosso clube de coração.

Esse “post” se concentrou nos resultados/protagonismo, mas vale citar também os reflexos financeiros de cada caminho. Diversos exemplos de clubes que, por mais que tenham ganho um ou outro título esporádico ao escolher o atalho, tiveram (ou têm) de lidar com situações gravíssimas com perda de competitividade flagrante, sendo o maior exemplo atual o Cruzeiro.

Penso que ficou evidente que esse “blogueiro” não está defendendo 30 jogadores da base no elenco ou que o clube nunca faça uma aposta financeiramente mais arriscada. O ponto central aqui é debater a “linha mestra” do clube, o conceito por trás das decisões. Por mais que o Palmeiras tenha contratado Rony, me parece inequívoco que o clube escolheu outra estratégia em 2020.

Enfim, Jesus nos deixou novamente. Saiu do Rio de Janeiro e foi pra Lisboa, repetindo D. João VI em 1821. Mas, como o Messias há mais de 2 milênios, deixou seus ensinamentos sobre os caminhos. Parafraseando São Lucas, temos os caminhos da paz x caminhos da destruição. A escolha é nossa!

E, obrigado, Jesus! Graças a sua vinda, entre outros motivos, ganhamos a Glória Eterna! Mais importante, essa enorme conquista talvez tenha conquistado mais alguns defensores do caminho mais difícil. Pessoalmente, como uma voz antiga e quase isolada nesse debate, ficaria extremamente feliz!

O futuro dirá!

 

Marcelo, o Racional

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Simpatia é quase amor

Caros amigos,

Em 2018, ainda sob os efeitos do histórico gol de Deyverson em São Januário, publiquei um “post” intitulado “A Necessidade da Evolução Contínua. A Falácia da Hegemonia no Brasil”. Com o intuito de poupar o tempo do raro leitor, citarei os itens e escreverei apenas sobre as evoluções, ou não, dos mesmos abaixo. Caso haja interesse no maior esclarecimento da razão de cada item, peço acessar o “post” do ano passado. Sendo assim, vamos a eles:

1 – Necessidade de mudanças estruturais

Regredimos. O Palmeiras se aproximou ainda mais do “sistema” com a pacificação com a Federação Paulista.

2 – Priorização do Brasileirão

Regredimos. O discurso oficial desse ano destacou que os investimentos foram fortes para buscar os títulos que o palmeirense mais sonha. Tudo isso culminou com um trabalho irreconhecível de Mattos em 2019. Seus críticos mais ferozes podem argumentar que 2019 apenas deu visibilidade ao que era ruim (não é a opinião do autor do “post”), mas, é indiscutível que 2019 foi um ano recheado de estranhezas (para ser elegante). A ida e vinda de Ricardo Goulart, a contratação de Carlos Eduardo por uma bagatela significativa (a segunda maior da história), a contratação arriscada de Ramires (cerca de 30 jogos em 30 meses), a venda de valores da base...Tudo isso somada a intenção de manutenção de 100% do elenco de 2018 (mesmo os mais contestados), além do não aproveitamento da base fez com que o antigo Mittos se desfizesse como um castelo de areia. A ausência de resultados esportivos (que reduz receita) e o aumento grande nas despesas deve fazer o Palmeiras fechar com prejuízo financeiro em 2019, a primeira vez desde que ele chegou em 2015. Sinceramente, não vejo sua passagem inteira como essa tragédia toda não, mas, não posso deixar de compreender sua saída em 2019. Ele abusou, com a conivência do clube, creio eu. Ficou insustentável.

3 – O Palmeiras não tem Mundial

Apêndice do que foi escrito acima. Sem comentários adicionais.

4 – Modelo de jogo

Ficamos no mesmo lugar. Bastante explorado no último “post” “A gente não quer só comida...”

5 – Campeão, mas podemos melhorar

Ficamos no mesmo lugar, conforme item anterior (modelo de jogo).

6- Novas mídias e TV

Avançamos em parte. Fizemos 2 excelentes contratos. Um de marca de camisa (Puma) e o contrato de TV, esticando a corda até o limite, mas com bons resultados, elogiados até pelos rivais. Entretanto, no restante do marketing possível (exceto Crefisa), não fomos brindados com relevantes novidades.

7 – Ocupação do Estádio

Regredimos. Continuamos com ingresso caro. A pior performance esportiva fez o resto, ou seja, diminuiu o público no estádio.

8 – Avanti

Regredimos. As mesmas queixas do ano anterior. Infiro que com menos associados. Campanhas de marketing tímidas para retomar o fantástico impulso de 2015.

9 – Hegemonia

Regredimos. No campo e nos números financeiros.

10– Pacificação Política

Sem avanço. O processo vinha se deteriorando desde dezembro de 2016 e, após as últimas eleições, as fraturas estão expostas. Impossível vislumbrar algo positivo até o final de 2021, pelo menos.


Esses foram os 10 pontos citados no ano passado. Peço licença para acrescentar mais um:

11 – Simpatia

Segundo o dicionário, simpatia é afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas. Pois bem, o Palmeiras se afastou da similitude no sentir e pensar da sua torcida e da sociedade como um todo. Esse processo não é exclusividade desse ano, mas, de uns tempos para cá. Para citar alguns exemplos, o posicionamento frio quando as autoridades resolveram fechar a Rua Palestra Itália. O Palmeiras orgulhava-se da maior festa de estádio pré-jogo do país, algo que possibilitou o espetáculo de 02 de dezembro de 2015, onde mais de 10 mil pessoas empurraram o Palmeiras do lado DE FORA do estádio na final da Copa do Brasil. O Palmeiras se posiciona de costas para seu povo e diz que compreende e respeita a decisão das autoridades. Além disso, há anos, o ingresso mais caro do país. Imagino a quantidade de apaixonados que, depois do Velho Palestra, nunca mais pisaram lá. Não, não me tornei socialista de dinheiro alheio. Ocorre que o estádio invariavelmente tem 10 mil lugares vazios. Imagino as dificuldades (inclusive com a construtora), mas essa era uma briga para estar junto com seus aficionados, usando a mídia a favor. Preferimos, mais uma vez, o outro lado. Mulher de jogador agredido e a nota do Palmeiras congelava os olhos de quem lia, tamanha a frieza. Único estádio do Brasil que presenteia a torcida adversária com uma rede. Primeiro estádio no Brasil onde o MP proíbe a torcida visitante de outro estado a participar do jogo. Em ambas as oportunidades, compreensão com as autoridades e as costas para o torcedor. Uma campanha publicitária que exalta a inveja dos outros (cuidado com o soberano, hein...). Para coroar tudo isso, há décadas jogando um futebol que só atrai palmeirense convertido. Enfim, penso que é de suma importância a contratação de um profissional de relações institucionais. Alguém com tamanho e competência para se reconectar com a torcida e, porque não, com a sociedade. Inúmeros clubes aqui e lá fora têm uma série de ações bacanas, com o intuito de fortalecer o maior patrimônio que é o amor de uma torcida pela marca. Algumas ideias bastam copiar, outras adaptar à nossa realidade.
Regredimos em 2019 nesse quesito também.

Caros amigos,

É com muita tristeza que, de acordo com os itens acima, nossa instituição regrediu. Soma-se a isso a redução da transparência com a não divulgação de balancetes, a inversão da tendência de superávits anuais, a sensação do ressurgimento do SVIP (Serviço de Vazamento de Informações do Palmeiras) e a maior proximidade do patrocinador com a torcida organizada. Sendo assim, pode-se constatar que o primeiro ano do segundo mandato de Galiotte foi ruim. Ficou longe de arrancar suspiros.

E 2020?

Bem, vai depender dele em primeiro lugar, da diretoria em segundo, dos profissionais em terceiro e, por fim, das escolhas da torcida, que, como penso, empresta apoio tácito às ações. 

Com Jorge Jesus e Sampaoli, abriu-se uma janela de oportunidade de libertar o Palmeiras do sequestro do futebol chinfrim. Não podemos perder essa oportunidade. Penso que o processo não será linear. Uma entrevista falando do DNA ofensivo aqui (bom), um maior aproveitamento da base ali (bom) e a vinda de Vanderlei Luxemburgo para embaralhar tudo. Contratamos baseados mais na fé que nos trabalhos dos últimos 10 anos. Como ele é um carioca que gosta de Carnaval, o título do “post” vai em sua homenagem. Minha contribuição esotérica (a la Roberio de Ogum) para ajudar a dar certo...

Porém, essa é a única contribuição do meio externo. Todas as demais dependerão da gente. Esse “post” tem a intenção de contribuir com o debate, elencando os aspectos que deveríamos focar nos próximos anos. Ainda somos protagonistas. Mas, em 2019 perdemos espaço.

Mãos à obra para reconquistar!

Marcelo, o Racional

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A gente não quer só comida

Caros amigos,

E chegamos a mais um fim de ano. Época dos nossos tradicionais “posts”. E que ano...Ou melhor, e que semestre! Até a Copa América as coisas iam razoavelmente bem...Mas, um tsunami varreu o futebol brasileiro em julho. Sim, um tsunami dado sua força e “imprevisibilidade” (espero conseguir explicar as aspas no texto).

Difícil precisar exatamente quando, mas, lá pelos meados da década passada, nosso futebol foi sequestrado por um modelo de jogo primitivo. O principal símbolo foi Muricy Ramalho e seu tri pelo São Paulo. Resumidamente, defesa superprotegida, ligação direta e confiança nos cruzamentos e/ou “casquinhas” de centroavantes, buscando o gol redentor, o gol que garantia os 3 pontos. A enorme maioria dos jogos se traduzia em sofrimento, não importava se contra o Mirassol ou contra o Barcelona. O “único” enorme prazer era a vitória. E ela bastava. Na sequência, nesse ciclo vicioso, as vitórias favoreciam os técnicos e seus discípulos e vieram Mano, Tite, Marcelo Oliveira, Carille e que tais. As vitórias entorpeciam o torcedor e interditavam o debate. Como questionar “inquestionáveis” campeões.

Vindo de uma seca de títulos, era bastante desafiador para nosso amado time “inovar”. Era mais confortável, nadar na mesma raia dos adversários. Escrevendo em outras palavras, tentar jogar o melhor futebol medíocre do país. Além disso, nossa Libertadores foi jogada de forma, diríamos, menos arejada, apenas 3 anos depois da formação de um dos maiores esquadrões de nossa centenária história. Era a fome com a vontade de comer. Com Marcelo Oliveira, Cuca e Felipão, conquistamos 3 importantíssimos títulos nacionais.

Na prática, como ousar dizer que não bastava. Raras, raríssimas vozes abordavam a necessidade de fazer algo além, ainda mais com a vantagem financeira e a calma que a “barriga cheia de títulos” gera ou deveria gerar. Permitam-me, perdão, uma autocitação já que a questão de modelo de jogo foi abordada diversas vezes em “posts” que podem ser lidos neste “blog” e que foram publicados horas após as conquistas. De qualquer forma, esse pensamento de resgate do nosso DNA, de jogo propositivo, impositivo que nos permite com orgulho ostentar a alcunha de “A Academia” não ecoava nos corações e mentes da coletividade. Nem na fila tivemos times que trocavam menos de 100 passes por jogo. Toleramos isso. O carrinho na lateral que era símbolo do rival da Zona Leste, virou orgulho na Zona Oeste também.

As diretorias, em sua maioria, têm enorme receio em confrontar os torcedores. Como havia um apoio tácito da coletividade, a estratégia do Palmeiras em 2019 foi reforçar a aposta feita nos anos anteriores. Manutenção do modelo de jogo, renovação de contrato de todos os jogadores de 2018, aumento robusto para os 2 melhores jogadores do ano passado e contratações (falaremos disso em outro “post”) que se enquadravam nessa engrenagem. Como dar errado?

E não é que quase deu certo, novamente? Até a interrupção para a Copa América, o Flamengo de Abel Braga estava a impressionantes 8 pontos de diferença em apenas 9 rodadas. Éramos líderes incontestáveis, enfileirando uma série de vitórias magras, intercaladas com alguns espasmos de futebol (como contra o Fortaleza e Santos). Sim, continuávamos jogando o melhor futebol medíocre do Brasil.

Porém, e infortunadamente para nós, alguém no Flamengo percebeu que se não mudasse de raia, perderiam novamente. Fizeram uma aposta alta, dessas que só são permitidas quando a certeza de fracasso é certa, não por convicção. Trouxeram um técnico com o objetivo de propor algo parecido com o que só podíamos apreciar pela TV. Aquele famoso “é outro esporte” que dizíamos após sermos brindados por um bom espetáculo de futebol no Novo Mundo. Nada tão especial. “Apenas” repensaram a ojeriza pela bola. Intensidade na marcação em todos os espaços do campo e deslocamentos para facilitar passes. O ótimo time começou a vencer, vencer e vencer. Com isso, a tão importante confiança fez o restante. Como naqueles “alinhamentos de planetas” a coisa entre em círculo virtuoso. Foi um massacre. Em apenas alguns meses, título brasileiro com inéditos 90 pontos, incontáveis goleadas sobre os rivais e o título continental. Nada mal. Além dos aspectos objetivos (títulos), a forma alegre de jogar, sem dúvida, colabora demais para a conquista de mais torcedores mirins, pedra fundamental da grandeza de qualquer time.

Enfim, foi um tsunami. As ondas cariocas dizimaram 2 técnicos, um diretor de futebol, diversos jogadores e, talvez, tenha sido o começo da desintoxicação da coletividade em relação ao futebol primitivo. Pela primeira vez, li nas redes “antissociais” sobre a necessidade de jogar um bom futebol. Não necessariamente bonito, algo subjetivo, mas um bom futebol.

Como o Palmeiras responderá ao novo momento?

Infelizmente, não sei ao certo. Penso que as condições nunca estiveram tão favoráveis ao resgate da nossa história, da nossa identidade. Penso também que, se escolhermos mudar, como todo processo de desintoxicação, esse terá hesitação, tentação, recaídas, etc. Convicção, se houver, será posta à prova quase que diariamente.

Não é impossível que esse Flamengo reduza de ímpeto (dentro de campo), que seu técnico saia, que uma derrota no mata-mata para um técnico “reativo” mude o ambiente novamente. Penso que isso não deveria interessar.

Quem comanda um clube deveria sempre se inspirar no que nos trouxe até aqui. Nossa história de 105 anos teve dores, quedas, derrotas, mas, nunca falta de altivez. Nunca covardia. Não foi “jogando por uma bola” que seguramos no braço os canalhas que queriam tomar nosso estádio em 1942. Não foi com “bola parada” que os italianos que sofriam todo o tipo de preconceito fundaram a Società Sportiva Palestra Italia. Não foi com “casquinha” para centroavante que conquistamos o Mundo em 1951. Não foi com “chutão” que a Academia representou o Brasil em 1965.

A gente não quer só comida!

Marcelo, o Racional

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Estimativas de Pontuação para o Campeão Brasileiro

Caros amigos,

Como não atender a um pedido de nosso amigo Prisco, vulgo Baggio, que gentilmente abre espaço para nossos “posts”? No fim do ano passado ele pediu que fizessemos uma abordagem referente às estimativas de pontuação para o Campeão Brasileiro. Isso foi motivado por alguns “palpites” nos 2 últimos títulos conquistados pelo Palmeiras. Em 2016, “cravei” os 72 pontos e em 2018 “cravei” os 74 pontos. Essas pontuações seriam suficientes, no limite, para superar os respectivos vices (Santos – 71 e Flamengo – 72). Coincidentemente, nos 2 anos, o Palmeiras chegou a 80 pontos, bem acima do necessário.

Evidentemente, diversos fatores influenciam esses números num campeonato apenas. O equilíbrio da disputa, o momento do jogo decisivo entre os primeiros colocados, a antecedência na qual o campeonato é decidido (que desmotivaria o segundo lugar), se ainda há algo em disputa pelo segundo colocado (vaga na Libertadores ou premiação que faça sentido para um time em maior dificuldade financeira), etc. Porém, quando usamos séries mais longas, esses efeitos são atenuados e o Brasileirão por 20 clubes já está na sua 13ª edição, sendo esta, uma boa amostragem para algumas conclusões.

Seria fácil se as condições de contorno fosse mantidas. Entretanto, o “post” anterior argumentava sobre a “nova ordem” dos clubes brasileiros, com a queda de relevância de alguns dos outrora 12 gigantes. O efeito imediato é a redução do equilíbrio do campeonato. Tentaremos demonstrar que esse processo já começou com uma poderosa aliada, a matemática.

Nas imagens abaixo, será possível verificar a pontuação média de cada posição, a mediana, o mínimo, o máximo, o desvio padrão e a soma entre o desvio padrão e mediana.

Observem a foto abaixo





O campeão faz, na média, 75,8 pontos; o segundo 68,3; o terceiro 66,6 e o quarto 63,4. Porém, se fizermos uma análise apenas dos últimos 5 anos (2014-2018), os números já se alteram de forma substancial para cima.





Observem que as respectivas pontuações vão para 78,6 (diferença de 2,8 pontos) ; 69,0 (0,7); 68 (1,4) e 64,2 (0,8). A mesma lógica é vista na parte de baixo da tabela com os times fazendo menos pontos. O 16º colocado faz na média, 43,7 pontos e nos últimos 5 anos 42,8 (0,9).

Para “comprovar” a tese, nessa última foto abaixo, o extrato dos primeiros 5 anos dos pontos corridos (2006-2010).




Comparando os últimos 5 anos com os primeiros 5 anos, a diferença é ainda mais gritante. Na primeira posição a variação foi de relevantes 5 pontos (78,6 x 73,6). Vale observar a diferença nas outras posições e na parte debaixo da tabela.

A conclusão é que o menor equilíbrio está “alargando” a tabela e essa tendência está longe do fim.

Sendo assim, meu caro Baggio, uma má notícia...os 74 pontos ainda poderão servir no curtíssimo prazo, mas, certamente não servirão nos próximos 3 a 5 anos. Sugiro colocar alguma gordura antes de apreciar seus fantásticos vinhos ao final dos campeonatos brasileiros...

Marcelo, o Racional

sábado, 29 de dezembro de 2018

Nem 12 nem 2 – A Consolidação do Futebol Brasileiro

Caros amigos,

Conforme prometido no penúltimo “post”, faremos uma abordagem sobre a maior dificuldade em ser hegemônico no Brasil. Para tanto, é interessante recorrermos à história para tentarmos entender o processo. O futebol chegou ao Brasil mais ou menos no mesmo tempo da Proclamação da República. Do ponto de vista político administrativo, nossa República foi inspirada no modelo norte-americano, tanto que a primeira denominação foi Estados Unidos do Brasil. Como consequência, os Estados tinham importância acentuada no caráter de cada sociedade até porque o país é continental e não havia a estrutura de transportes e tecnologias atuais para uma maior integração. O modelo de administração esportiva não poderia ser construído de forma diferente. As federações estaduais foram as primeiras entidades a organizarem minimamente a estrutura do futebol e os campeonatos estaduais eram os únicos com alguma relevância no começo do século passado.

Claro que, desde o princípio, o esporte se desenvolve mais onde há mais predominância econômica, por isso, nem todos os Estados construíram futebol relevante, especialmente os que ficam no lado Ocidental do Tratado de Tordesilhas, ou seja, o Centro-Oeste e Norte Brasileiro que experimentaram algum desenvolvimento apenas nas últimas décadas do século XX. Além do aspecto econômico, a influência inglesa em determinada região também colaborou para um maior desenvolvimento do esporte bretão em terra “brasilis”. Essa influência era bastante nítida no setor ferroviário brasileiro, através dos investimentos de companhias inglesas que trouxeram a novidade ao país. Nesse aspecto, o Estado de São Paulo foi privilegiado e no interior vários clubes tiveram origem “ferroviária”, como o Noroeste (Bauru – Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), Ferroviário Ituano (Itu – Estrada de Ferro Sorocabana), Paulista (Jundiaí – Companhia Paulista), Ferroviária (Araraquara – Estrada de Ferro Araraquarense), entre outros.

Esse modelo permitiu a evolução de diversas rivalidades regionais, como se o Brasil tivesse diversos países dentro de um. Permitiu também algo muito difícil de se repetir em outros países que foi a existência de vários times relevantes numa mesma cidade, especialmente a antiga capital federal e seus 4 clubes (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo), lembrando que o Rio era um Estado (Distrito Federal, depois Guanabara). Como consequência, esses times comemoravam títulos (relevantes à época) com boa regularidade e os títulos são a melhor receita para aumentar torcida e criar “camisas que entortam varal”, as famosas camisas que tem peso por si só. Os Estados mais relevantes economicamente foram criando suas rivalidades, inclusive os mais importantes do Nordeste.

Nos anos 50, começam as primeiras tentativas de integração entre os Estados como o Rio-São Paulo e a Taça Brasil cujo primeiro campeão, vejam só, foi o Bahia com seus mais de 40 mil torcedores no jogo na Fonte Nova. Nos anos 60, no período militar, o governo central estimula a construção de gigantes de concreto como o Castelão, Mineirão, entre outros, fortalecendo ainda mais o futebol nas regiões fora do eixo Rio- São Paulo. Em 1971, aproveitando a excepcionalmente bem sucedida experiência do Robertão, é jogado o “primeiro” Campeonato Brasileiro (para entender as aspas, vale ler o “post” anterior), consolidando a integração do futebol nacional. Porém, não se podia jogar mais de 50 anos de tradição fora e os campeonatos estaduais continuavam mais importantes que o próprio nacional, permitindo que vários clubes levantassem canecos com boa regularidade.

Essa dinâmica persistiu até mais ou menos até o final dos anos 90. Nesses cerca de 30 anos, vale ressaltar que não havia grande discricionariedade entre as receitas dos maiores clubes. Os valores dos patrocínios de camisa (começaram nos anos 80), de remuneração da TV e bilheteria (menos relevante na época já que os ingressos eram muito baratos) eram muito semelhantes. A diferença era uma grande venda para o exterior (havia a lei do passe) ou a posse de um estádio particular. O São Paulo se beneficiou muito disso já que os rivais pagavam aluguel para usar o estádio. Não por outro motivo, o clube da Zona Sul tem seus melhores resultados esportivos nesse período. A imprensa dizia que era modelo de administração. Não necessariamente, penso eu. Tinha mais dinheiro, simplesmente. De qualquer forma, vários clubes conseguiam deixar as torcidas felizes, levantando canecos com boa constância. Existiam as filas, é verdade. Botafogo, Corinthians e Palmeiras experimentaram anos sem conquista, mas vale ressaltar que esses clubes disputavam apenas 2 campeonatos por ano. Não é como hoje que disputam 4 ou 5 e isso, na minha opinião, faz a fila atual do São Paulo ser ainda mais relevante que as anteriores.

Dos anos 90 até hoje verificamos uma série de fenômenos. Maior valorização da Libertadores e do Brasileiro. Estabilidade do regulamento do Brasileiro com pontos corridos, acesso e descenso. Criação de competições como Copa do Brasil e da segunda competição continental (Supercopa dos Campeões da Libertadores, Conmebol, Mercosul e Sul-Americana). Aumento exponencial da receita de patrocínio e de TV. Negociação individual da receita de TV (após implosão do clube dos 13). Criação dos planos de sócio torcedor. Maior relevância da bilheteria (os ingressos de arquibancada custavam US$ 1 dólar nos anos 90). Construção ou reforma de estádios particulares. Fim da lei do passe. Concorrência de outros mercados internacionais (Leste Europeu, Oriente Médio, Japão, China) que geram trocas constantes nos elencos. Aumento do número de jogos e exigência física do esporte e, como consequência, aumento da importância de CT’s e Centros de Reabilitação.

As alterações desse início de milênio são mais profundas das que foram observadas em todo o século passado e isso está sacudindo a estrutura do futebol brasileiro. Começamos a questionar no bar ou em programas esportivos se o Botafogo ainda é grande e se o Athletico Paranaense pode sê-lo. A diferença de receita anual dos clubes vai se acentuando e a igualdade entre os antigos grandes não se observa mais. Fica a dúvida do futuro. Será que nos transformaremos numa Espanha? Voltaremos a reconhecer os 12 clubes grandes?

Difícil responder, mas apostaria num cenário intermediário. Acho difícil a cidade do Rio de Janeiro suportar 4 times grandes. Não terá mais espaço. Acho difícil também que tenhamos 12 clubes relevantes no cenário nacional. Na verdade, usando o exemplo do parágrafo acima, o Botafogo e o Athletico devem se assemelhar a um Everton-ING ou Valencia- ESP. Militarão nas posições intermediarias da liga nacional, num ano bom conseguirão vagas para a principal competição continental e com boa dose de acerto e sorte podem tentar um título no mata-mata, especialmente Copa do Brasil ou Sul-Americana. Por outro lado, atualmente, alguns especulam que Flamengo e Palmeiras dominarão o futebol brasileiro (que se tornaria “espanhol). Difícil, para não dizer impossível. Penso que a forma como nosso futebol foi forjado praticamente elimina a chance do futebol brasileiro ser dominado por apenas 2 clubes. Alguns times têm torcida consolidada e boa capacidade de geração de receita. A pujança econômica do Estado de São Paulo sugere que mais de um time será relevante no cenário nacional. Os Estados de Minas e Rio Grande do Sul devem continuar “exportando” times nacionais. Existe a hipótese de renascimento de algum time carioca (mais provável o Vasco). Enfim, aposto num cenário inglês onde 5 ou 6 times podem se revezar nas principais conquistas. Aos outros, sobrará comemorar os esvaziados campeonatos estaduais que, de uma maneira ou de outra, ainda é uma conquista.

Portanto, hegemonia é uma palavra que não deve existir no futebol brasileiro. Que o Palmeiras não caia nessa “história da carochinha” e continue trabalhando fortemente, dia após dia, para manter seu protagonismo.

Marcelo, o Racional